Os anormais de Santa Catarina
E tem gente, lá em outros lugares, e aqui também, que acha que Santa Catarina (e o Vale do Itajaí) são mesmo o Umbigo do Mundo, lugar freqüentado só por alemãezinhos de alto naipe, gente perfeita, fazedora de Oktoberfest, e que vive dançando em trajes típicos enquanto se mata de trabalhar para fazer deste recanto do Brasil o próprio Paraíso Terrestre: Paraíso Terrestre aqui, ó! Inferno de anormais, digo eu. Está certo que tem gente que se mata de trabalhar mesmo, e que gosta de festejar mesmo, mas isto não exclui o bando de anormais que andam pelo poder aqui em Santa Catarina, a começar pelo governador – e podem olhar tim-tim por tim-tim se em alguma outra vez eu usei do nome dele para falar alguma coisa, mas agora não está dando para segurar: Luiz Henrique da Silveira, governador de Santa Catarina, faz algum tempo andou defendendo umas idéias, num jornal, que até hoje não consegui engolir: eugenia, sem mais nem menos. Sabem o que é eugenia? Nada menos que as idéias de Hitler: só deixar viver quem é bonito, loiro, sábio – os outros, fogueira neles, ou câmara de gás, decerto desejo acalentado pelo venerável senhor desde os tempos de criança, quando não era nem bonito, nem loiro e nem sábio, e deve ter sofrido muito nas mãos de uns nazistazinhos que freqüentavam a mesma escola que ele – como a idade não o deixou nem mais bonito, nem mais loiro, e muito menos mais sábio, se ele constrói a tal câmara de gás, está sujeito a ser dos primeiros a ser fritado. Parece que estou defendendo a idéia de que loirinhos bonitos são perfeitos e escaparão da câmara de gás – não é nada disto.
“Mauricinho anormal” quer meter exército contra povo Xokleng
Se olharmos o Inferno de Anormais que anda por aí no poder, vamos dar de cara, bem rapidinho, com um alemãozinho também metido a nazista, oriundo daqui desta cidade de Blumenau, que propõe publicamente baixaria ainda pior: mandar o exército fazer uma carnificina nos índios Xokleng, moradores de José Boiteux, explorados e vilependiados pelos alemãezinhos e outros, que lhes roubaram as terras, a cultura, quase que a alma, e agora desejam lhes roubar, quiçá, a vida. O nome desse anormal? Jean Kuhlmann, do séqüito dos anormais que andam ao redor do governador anormal, infelizmente, meu conterrâneo. E o povo, por aí, achando que isto aqui é o Paraíso!
Abaixo o racismo e a xenofobia em Gaspar
E o pior não são sequer as baixarias acima: o pior é o que está acontecendo em Gaspar! O povo Guarani, que recebeu indenização por terras perdidas na sua reserva do Morro dos Cavalos, resolveu investir em terras de Gaspar, com a legal interveniência da FUNAI e tudo o mais. Sabem o que está rolando lá em Gaspar? A princípio, os anormais de lá pularam para fora das suas tocas, e basta uma coletânea de algumas declarações que se faz por lá para você se inteirar o que é preconceito. A princípio, ao saber do desejo dos Guarani, o Prefeito Adilson Schmitt desapropriou a terra que ia ser comprada, dizendo-a de utilidade pública, para que os Guarani não possam tê-la. E vamos ver algumas declarações: “... Outra polêmica em Gaspar. Eu acredito que essa vai ser avassaladora. Vamos ter novos moradores em Gaspar. Índios. Será que nós merecemos, povo gasparense?...” (Ivanilde Rampelotti, presidente do Sindicato Rural local). De Gilberto Schmitt, jornalista, sob o título de “Chumbo”: “Sou contra a vinda deles(...) Se eles querem uma identidade própria, não é nada legal alojá-los no meio da civilização.(...) A FUNAI quer empurrar uma tribo indígena goela abaixo para Gaspar(...) Não quero noticiar aqui o nascimento de nenhum índio de olhos azuis.” E isto é só uma pequena amostra. Queria saber que grande “civilização” é esta que existe em Gaspar, queria saber desde quando racismo deixou de ser crime inafiançável, para esses anormais andarem assim à solta por lá, queria saber o pedigree que atesta a arianidade dessa gente alinhada com o governador eugenista! E queria perguntar ao douto Gilberto Schmitt sobre como irão nascer índios de olho azul, se os ditos “arianos” de Gaspar não forem lá furunfar com as índias. Elas devem ser a sua grande tara sexual, não é, seu descendente de ladrão de terras de índios, em ponto de bala para ir para a cadeia por crime inafiançável? A última notícia é de que os Guarani e a FUNAI desistiram das terras de Gaspar. Eta Estadinho à toa! E como tem anormal se achando o máximo por aqui!
Blumenau, 29 de Outubro de 2007.
Urda Alice Klueger
Historiadora e escritora
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Um passeio pelo inferno
Por elaine tavares - jornalista
Chove a cântaros em Florianópolis. São seis e 15 da tarde e saio do trabalho como um bagaço. Foi um longo dia. A sombrinha comprada no camelô vaza água por cima e molha toda a minha cabeça. Aperto o passo para chegar logo à parada do ônibus. Mas, um motorista, dentro de um ônibus da Insular, passa a toda velocidade sobre uma poça de água e encharca a minha saia. Maldito! Não têm consciência de classe. Preparo-me para o calvário que me espera. Em Florianópolis ninguém fica menos de meia hora numa parada de ônibus.
Passam 35 minutos e eu ali, gelada e com ódio. Xingo os empresários dos transportes, os vereadores, o prefeito e toda a sua geração. O Volta ao Morro enfim passa e lá vou eu até o final da Carvoeira para pegar mais um ônibus - na famosa “integração” inventada por Ângela Amin - rumo ao Rio Tavares. A chuva não dá trégua. Já são sete e dez da noite e eu tenho de andar mais um pouco na chuva para chegar à parada. Começo a chorar, num ódio surdo deste transporte desintegrado, incompetente e ineficaz. Bate uma vontade de quebrar tudo.
Na parada do Rio Tavares se repete o martírio. São 50 minutos de espera sob a chuva. É inacreditável que se fique tanto tempo esperando um ônibus. Lá vem ele, enfim. Está lotado até a boca. Então, são duas opções: ou a gente se sujeita a essa indignidade do aperto, do empurra-empurra, do esmagamento, ou fica mais 50 minutos esperando o próximo. É coisa para enlouquecer qualquer um. E só o que se quer é chegar em casa. Grito de ódio e as pessoas na parada me olham como se eu fosse louca. E, enquanto grito, agoniada, elas vão entrando feito carneiros, no latão lotado. Não entro. Praguejo como um marinheiro. Já são oito horas da noite. E, pensar que da universidade onde trabalho até minha casa são apenas 20 minutos de carro. Toca a esperar.
A chuva segue, zombando. Os carros passam céleres e vazios. Às oito horas e trinta e cinco minutos aponta um outro Rio Tavares. Aleluia. Não está tão cheio e ainda restam bancos na parte da frente. Hesito em sentar ali porque pela lei de Murphy certamente se eu sentar logo vai entrar um idoso. E, nessas horas, todo mundo vira o rosto para a janela fingindo não ver. Eu não resisto. Minha herança cristã e o respeito pelos mais velhos afloram. Sempre cedo o banco. Por isso não sento na frente. Não gosto da idéia de levantar depois de ter posto o corpo para descansar. Mas, com aquela chuva, penso que os velhinhos não deverão sair de casa àquela hora. Sento.
Distraída, fico a olhar os bancos. Só então percebo mais um absurdo do transporte coletivo. Os bancos da frente que são reservados aos idosos e pessoas com necessidades especiais ficam sobre altos degraus. Não é estranho? Os mais velhos terem de subir ali, arriscando cair, uma vez que, por conta do horário que têm de cumprir, os motoristas parecem sempre carregar bois? Começo a resmungar e falo sobre isso com o cobrador que me olha curioso. Ele encolhe os braços, indiferente. Mais um sem consciência de classe. Mais ódio se acumula no meu ser.
São nove e quinze da noite quando chegamos ao terminal do Rio Tavares e só haverá ônibus para o Castanheira às nove e meia. Isso significa que só chegarei em casa lá pelas dez da noite. Continuo chorando enquanto as pessoas-cordeiros olham indiferentes. Mas, meu choro não é faniquito de pequeno-burguesa. Ao contrário. É ódio. “Ódio são”, como diria Cruz e Souza. Ódio da indiferença das gentes que se acomodam e não lutam. Enquanto outros, os que lutam, são chamados de baderneiros ou sofrem mutilações como aconteceu com o vereador Márcio de Souza. Ódio dos empresários e governantes que não estão nem aí para os seres que fazem a cidade. Viesse um gênio a ofertar-me desejos eu pediria que essa gente fosse obrigada a andar de ônibus por um ano inteiro. Queria ver se não mudava.
São quase dez horas quando chego em casa. Insanidade. Quatro horas no inferno. A chuva amainou e os gatos esperam no alpendre com seus olhos mansos. Na cozinha há uma luz acesa onde meus homens esperam. Dois sobrinhos-filhos e o meu amor. Estão secos e alimentados. Acolhem minhas dores e servem café quente. Só aí a vida parece fazer sentido. Lá fora, ruge a caldeira do diabo. Um diabo que tem nome.
Armagedon humano?
Leonardo Boff
Teólogo
Os atuais cenários sombrios sobre o futuro do sistema-vida e especificamente da espécie humana permitem que biólogos, bioantropólogos e astrofísicos aventem o possível desaparecimento da espécie homo sapiens/demens ainda neste século. Aduzem argumentos que merecem ponderação. O mais robusto parece ser aquele da superpopulação articulada com a dificuldade de adaptação às mudanças climáticas. Na escala biológica verifica-se um crescimento exponencial. A humanidade precisou um milhão de anos para alcançar em 1850 um bilhão de pessoas. Os espaços temporais entre os índices de um crescimento a outro diminuem cada vez mais. De 75 anos - de 1850 a 1925 - passaram para 5 anos de diferença. Prevê-se que por volta de 2050 haverá dez bilhões de pessoas. É triunfo ou dano?
Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis microbiólogos, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação. Isso pode ser comprovado por micro-organismos colocados na cápsula Petri (placa redonda com colônias de bactérias e nutrientes). Pouco antes de atingirem as bordas da placa e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente morrem. Para a humanidade, comentam eles, a Terra pode mostrar-se idêntica a uma cápsula Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre: desertos, floresta amazônica e regiões polares. Estamos chegando às bordas físicas da Terra. Há explosão demográfia e decrescimento dos meios de vida num planeta limitado. Sinal precursor de nossa próxima extinção?
O prêmio Nobel em medicina, Christian de Duve, sustenta que estamos assistindo a sintomas que precederam no passado as grandes dizimações. Normalmente desaparecem por ano 300 espécies vivas porque chegaram ao seu climax evolucionário. Dada a pressão industrialista global sobre a biosfera estão desparecendo cerca de 3.500. Um desastre biológico. Será que agora não chegou a nossa vez?
Carl Sagan, já falecido, via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais como o Voyager 1 para fora do sistema solar, a manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. A vontade de viver nos leva a excogitar formas de sobrevivência para além da Terra. O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extrasolar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de trinta mil quilômetros por segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável. Mesmo assim só para chegar a estrela mais próxima – a Alfa do Centauro – precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade.
Tais reflexões nos permitem falar de um possível Armagedon humano. Este representa um desafio para as religiões que vêem o fim da espécie como obra do Criador e não da atividade humana. Para o Cristianismo a morte coletiva, mesmo induzida, não impede o triunfo final da vida pela via da ressurreição e da transfiguração de toda a criação por Deus.
MEU ENCONTRO COM QUINTANA
Por Luiz Carlos Amorim
Uma grande frustração que tenho é não ter conhecido pessoalmente Mario Quintana, o menino Quintana, meu poeta preferido. Sempre quis ir a Porto Alegre, visitar a Feira do Livro, mas o trabalho e outros compromissos nunca deixaram. E o poeta foi completar o céu com a sua poesia.
Então fico eu cá imaginando meu encontro com o poeta. Eu chegaria ao Majestic ou o encontraria na Rua da Praia, ou ainda na Feira do Livro de Porto Alegre. Eu o cumprimentaria, beijar-lhe-ia a mão e me apresentaria. Dir-lhe-ia que sou um poeta aprendiz, nascido ao pé da Serra do Mar, na Santa e bela Catarina, que aprendeu a amar a poesia com os seus poemas. E então pediria para lhe dar um abraço. Talvez ele até pudesse pensar que eu fosse maluco, mas não somos todos, um pouco? E ele talvez já tivesse conhecido outros malucos assim. Mas acho que me convidaria a sentar e conversaríamos. Eu lhe entregaria um ou outro poema, ele acenderia um cigarro e talvez lesse um dos meus poemas.
Que diria ele? Talvez gostasse, talvez não. Deveria ser comum as pessoas levarem poemas para ele ler e opinar, talvez ele nem gostasse de fazer isso. No entanto, qualquer coisa que ele dissesse seria uma grande lição para um pequeno poeta (isso me lembra que ele disse que não existem pequenos ou grandes poetas: ou se é poeta ou não).
Será que ele reconheceria um poeta em mim? Não sei, mas acho que ele diria alguma coisa, naquela voz mansa e naquele falar quase ligeiro, e o que ele dissesse seria bem vindo.
Eu tentaria, ainda que com receio de aborrecê-lo, fazer uma entrevista, é claro. Far-lhe-ia algumas perguntas, que não direi quais porque na época elas seriam umas, mas hoje já seriam outras. E acho que ele responderia, e eu teria aprendido muito mais então. E eu dividiria as palavras do mestre Quintana, pois certamente publicaria, para que todos pudessem usufruir da sensibilidade e da sabedoria dele.
E voltaria para casa com a alma lavada, feliz por ter conhecido o grande poeta.
Por Luiz Carlos Amorim
Uma grande frustração que tenho é não ter conhecido pessoalmente Mario Quintana, o menino Quintana, meu poeta preferido. Sempre quis ir a Porto Alegre, visitar a Feira do Livro, mas o trabalho e outros compromissos nunca deixaram. E o poeta foi completar o céu com a sua poesia.
Então fico eu cá imaginando meu encontro com o poeta. Eu chegaria ao Majestic ou o encontraria na Rua da Praia, ou ainda na Feira do Livro de Porto Alegre. Eu o cumprimentaria, beijar-lhe-ia a mão e me apresentaria. Dir-lhe-ia que sou um poeta aprendiz, nascido ao pé da Serra do Mar, na Santa e bela Catarina, que aprendeu a amar a poesia com os seus poemas. E então pediria para lhe dar um abraço. Talvez ele até pudesse pensar que eu fosse maluco, mas não somos todos, um pouco? E ele talvez já tivesse conhecido outros malucos assim. Mas acho que me convidaria a sentar e conversaríamos. Eu lhe entregaria um ou outro poema, ele acenderia um cigarro e talvez lesse um dos meus poemas.
Que diria ele? Talvez gostasse, talvez não. Deveria ser comum as pessoas levarem poemas para ele ler e opinar, talvez ele nem gostasse de fazer isso. No entanto, qualquer coisa que ele dissesse seria uma grande lição para um pequeno poeta (isso me lembra que ele disse que não existem pequenos ou grandes poetas: ou se é poeta ou não).
Será que ele reconheceria um poeta em mim? Não sei, mas acho que ele diria alguma coisa, naquela voz mansa e naquele falar quase ligeiro, e o que ele dissesse seria bem vindo.
Eu tentaria, ainda que com receio de aborrecê-lo, fazer uma entrevista, é claro. Far-lhe-ia algumas perguntas, que não direi quais porque na época elas seriam umas, mas hoje já seriam outras. E acho que ele responderia, e eu teria aprendido muito mais então. E eu dividiria as palavras do mestre Quintana, pois certamente publicaria, para que todos pudessem usufruir da sensibilidade e da sabedoria dele.
E voltaria para casa com a alma lavada, feliz por ter conhecido o grande poeta.
BARES
Autor: Nicolas Guillén – (poeta cubano) escrito em 1958
Tradução: Urda Alice Klueger – (brasileira) traduzido em 2006
Amo os bares e botequins
Junto ao mar
Onde a gente conversa e bebe
Só por beber e conversar.
Donde João Ninguém chega e pede
Seu trago básico
E estão João Bronco e João Navalha
E João Narizes e até João
Simplório, e só, e simplesmente
João.
Ali a branca onda
Bete de amizade; uma amizade de povo, sem retórica,
Uma onda de: “ Oi, como estás?”
Ali cheira a peixe
A mangue, a rum, a sal
E a camisa suada posta a secar ao sol.
Busca-me, irmão, e me acharás
(em Havana, no Porto,
Em Jacmel, em Shangai)
com a gente simples
que só por beber e conversar
povoa os bares e botequins
junto ao mar.
Autor: Nicolas Guillén – (poeta cubano) escrito em 1958
Tradução: Urda Alice Klueger – (brasileira) traduzido em 2006
Amo os bares e botequins
Junto ao mar
Onde a gente conversa e bebe
Só por beber e conversar.
Donde João Ninguém chega e pede
Seu trago básico
E estão João Bronco e João Navalha
E João Narizes e até João
Simplório, e só, e simplesmente
João.
Ali a branca onda
Bete de amizade; uma amizade de povo, sem retórica,
Uma onda de: “ Oi, como estás?”
Ali cheira a peixe
A mangue, a rum, a sal
E a camisa suada posta a secar ao sol.
Busca-me, irmão, e me acharás
(em Havana, no Porto,
Em Jacmel, em Shangai)
com a gente simples
que só por beber e conversar
povoa os bares e botequins
junto ao mar.
terça-feira, 23 de outubro de 2007

AS CHUVAS DA MINHA INFÂNCIA
Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor – lc.amorim@ig.com.br)
Esta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado de ter acordado com o barulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tamborilar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas, graças a Deus!) ou na janela. Que eu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, do flamboian, da azaléia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum, em nossa região), pois as flores caem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem. E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua, no inverno, pois é resfriado na certa..
Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância, já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles tempos de garoto, idos tempos, fazia com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelas e olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao lado da casa e junto da calçada. Não era delicioso chapinhar na água da chuva? (Sei que chapinhar não é uma palavra muito usada, mas meu sobrinho de três anos a ouviu e adora usá-la.)
Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fazendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando barquinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidade que só criança tem.
Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando apanho chuva, fico aborrecido por que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de poder. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficando cansado.
Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um maluco molhado cantando e dançando na chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu.
Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor – lc.amorim@ig.com.br)
Esta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado de ter acordado com o barulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tamborilar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas, graças a Deus!) ou na janela. Que eu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, do flamboian, da azaléia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum, em nossa região), pois as flores caem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem. E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua, no inverno, pois é resfriado na certa..
Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância, já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles tempos de garoto, idos tempos, fazia com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelas e olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao lado da casa e junto da calçada. Não era delicioso chapinhar na água da chuva? (Sei que chapinhar não é uma palavra muito usada, mas meu sobrinho de três anos a ouviu e adora usá-la.)
Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fazendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando barquinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidade que só criança tem.
Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando apanho chuva, fico aborrecido por que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de poder. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficando cansado.
Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um maluco molhado cantando e dançando na chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Morrer para viver mais e melhor
Leonardo Boff - Teólogo
O sentido da vida depende do sentido que damos à morte. Se a morte é vista como simples negação da vida e como tragédia biológica, então vale o que São Paulo já dizia: "comamos e bebamos pois amanhã morreremos".
Mas há culturas que lhe deram um sentido mais alto. Ela é oportunidade de construir o próprio destino e de plasmar o mundo à nossa volta consoante um projeto civilizatório.
O cristianismo, por sua vez, propõe a sua representação da morte. Não contrária à vida, mas como uma invenção inteligente da vida para poder dar um mergulho radical na Fonte de toda vida. A morte não seria um fim-termo mas um fim-meta alcançada, um peregrinar rumo ao Grande Útero paternal e maternal que enfim nos acolherá definitavamente.
Dentro do cristianismo desenvolveu-se, com referência à morte, uma tradição de grande significação e de sentido de festa. Trata-se da tradição franciscana. Francisco de Assis conseguira uma reconciliação bem sucedida com todas as coisas, com as profundezas mais obscuras de nossa vida e com suas dimensões mais luminosas. Cantava a morte como irmã. Não como bruxa que nos vem arrebatar a vida mas como irmã que nos introduz no reino da plena liberdade. Morreu cantando salmos e cantigas de amor da Provence.
Os franciscanos todos guardam esta herança sagrada na forma como celebram a morte de algum confrade, membro da comunidade. A mim, com frade (que ainda sou em espírito) me tocou vivenciá-lo inúmeras vezes. É simplesmente comovedor - uma pequena antecipação do novo céu e da nova Terra - dentro deste já cansado planeta. Ao se aproximar a morte do confrade, toda a comunidade se reune ao redor de seu leito. Recitam-se salmos e orações, infundindo confiança ao moribundo para o Grande Encontro. No dia em que morre, à noite faz-se festa. É a chamada "recreação". Ai há confraternização, comida, bebida, comentários sobre a saga pessoal do confrade falecido e jogos de vários tipos.
No dia seguinte faz-se o enterro. E à noite, nova "recreação" festiva. O que se esconde atrás desse rito de passagem? Esconde-se a crença de que a morte é o vere dies natalis, o verdadeiro Natal da pessoa, o momento em que acaba de nascer definitivamente. Como não estamos ainda prontos, embora inteiros, cada dia vamos nascendo, progressivamente, até acabar de nascer. Isso dá-se na morte. Esta não é a campa da vida. É seu berço. Quem pode se entristecer com o nascimento da vida? É Natal e Páscoa, magnificação da vida mortal que a partir da morte se eterniza. Portanto, há bons motivos para festejar e celebrar.
O efeito desta compreensão é a desdramatização da morte e a jovialidade da vida. A vida não foi criada para terminar na morte, mas para se transformar através da morte. Esta representa aquele momento alquímico de passagem para uma outra ordem de realidade, onde a vida pode continuar sua trajetória de expressão das infinitas possibilidades que contem, até aquela de poder se fundir com a Suprema Realidade.
Então podemos dizer: não vivemos para morrer. Morremos para viver mais. Melhor ainda: para permitir a ressurreição da carne que é a revolução dentro da evolução.
ENCONTRO
Neida Wobeto
É verdade!
É vero!
É Veríssimo!!!
A menina conheceu
o menino do passado.
O menino apresentou-se à menina
como o "homem das letras".
A menina encantou-se.
As letras trabalharam,
na infância da menina,
formando sonhos e idéias.
A menina perpetuou
a imagem da fantasia
e buscou espelhar-se no menino.
A menina cresceu.
O menino morreu.
As letras mudaram de nome.
A menina não conheceu,
em vida,
seu ídolo.
No plano etéreo,
em sonhos,
menino e menina trocam idéias
e as almas se apresentam:
- Muito prazer! Urda.
- Encantado! Érico.
O semi-árido: o mais chuvoso do planeta
Leonardo Boff - Teologo
O romancista Graciliano Ramos, o pintor Di Cavalcanti e o cantor-sanfoneiro Luis Gonzaga nos acostumaram a associar o semi-árido nordestino à seca. Mas se trata de uma visão curta e parcial. Os últimos anos conheceram notável mudança de leitura. Estudos minuciosos e trabalhos consistentes suscitaram uma visão revolucionária. Fala-se menos de seca e mais de Semi-Árido com o qual se deve conviver criativamente. Nesta tarefa ganham relevância ONGs, comunidades eclesiais de base, a Articulação do Semi-Árido (ASA) que inclui 800 entidades ao redor do projeto "um milhão de cisternas" (já se construiram 200 mil) e o Movimento de Organização Comunitária (MOC) de Feira de Santana-BA que atua em 50 minicípios. O melhor apanhado desse processo prático-teórico nos é oferecido pelo exímio conhecedor da bacia do São Francisco, Roberto Malvezzi, com seu livro "Semi-Árido: uma visão holística"(Pensar o Brasil 2007). O eixo central é entender o Semi-Árido como bioma e a estratégia consiste na convivência não com a seca mas com o Semi-Árido.
Tal bioma, chamado caatinga, recobre uma área de 1.037.00 km quadrados com rica biodiversidade. Na época da seca quase tudo hiberna. Mas basta chover, de setembro a março, para, em alguns dias, tudo ressuscitar com um verdor deslumbrante. Não há falta de água. Como média caem 750 mm/ano. É o Semi-Árido mais chuvoso do planeta. Mas pelo fato de o solo ser cristalino (70%), impedindo a penetração da água, acrescentando-se ainda a evaporação por insolação, perdem-se anualmente cerca de 720 bilhões de litros de água. Recoletada, seria mais que suficiente para toda a região.
A estratégia da convivência com o Semi-Árido "visa a focar a vida nas condições socioambientais da região, em seus limites e potencialidades, pressupondo novas formas de aprender e lidar com esse ambiente para alcançar e transformar todos os setores da vida". Com efeito, os vários grupos que por lá atuam, utilizam o método Paulo Freire que consiste, fundamentalmente, em criar sujeitos ativos, autônomos e inventivos. Assim aprendem a aproveitar todos os recursos que a caatinga oferece, utilizando tecnologias sociais de fácil manejo com o propósito de garantir a segurança alimentar, nutricional e hídrica através da agricultura familiar e de pequenas cooperativas.
Entre muitos, três projetos são notáveis: o da construção de um milhão de cisternas de bica que recolhem água da chuva dos telhados, conduzindo-a diretamente para o reservatório de 16.000 litros hermeticamente fechado. O outro é "uma terra e duas águas"(o "1+2"): visa garantir a cada família uma área de terra suficiente para viver com decência, uma cisterna para abastecimento humano e outra para a produção. Por fim, o Atlas do Nordeste, proposta da Agência Nacional de Águas para beneficiar 34 milhões de nordestinos do meio urbano, custando a metade da transposição. Esse projeto se opõe à transposição, qualificada como "a última obra da indústria da seca e a primeira do hidronegócio".
Os referidos projetos, se implementados, custarão muito menos, atenderão a mais gente e não causarão impactos ambientais. Por fim, cito duas outras iniciativas do MOC: o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), oferecendo educação contextualizada às crianças e o Baú da Leitura. São baús cheios de livros que percorrem as comunidades entretendo as pessoas com leituras, interpretações e teatralizações, fazendo o povo pensar. De fato, o ser humano não nasceu para passar fome mas para irradiar, como diz um de nossos poetas-cantadores.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
SOL e MI
Cordas nos acordam no pescoço, osso que foste forte, mas, se não fosse a tosse estarias bem. Antes do tom ouvistes um som? Era alguém lá de cima tentando a rima para a menina dos sonhos dormir. Barulho no murro de ar, solta a letra que tem tanta treta para se decifra, homem diz: quero notas para Mi tocar. Olhar que caminha, bolhas de água caem do céu, todos ficam atolados na lama, todos sentem a melodia da chuva, depois um coro de choro, outra chuva. Guardem os guarda-chuvas, pois, somos Sol, este que escreve não lhe abre portas, mas passa por elas em saltos de anzol. Terra fresca onde encontro contos de fadas cantados, alados, sem dados digitais? Malucos descrevem e escrevem a falsa normalidade, basta o tempo, idade que aos poucos entra dentro da água do côco, olhar na fossa, fosco. A busca pela caneta, a neta usou , sou quem procura os seus desenhos, ela me fala de estrelas e suas gotas de luz. A luz ilumina a menina do olhos de fogo. Jogo de luzes entre céu e mar, peixes rezando para a criança deitar, seus sonhos fazem o mundo pensar e isto pode ser perigoso em um momento que vivemos.
O velho passa a mão em seus cabelos, elos de sentimentos nunca mentem o que o coração fala, e fala baixo para que a vibração tenha ação, oração, espada cravada entre sabedoria e informação, ele não pode adivinhar, ninguém pode. A menina pede chuva de palavras para lavar seu corpo que transpira a inocência. Ela cresce e não escuta mais os sons, a menina fica grande e seus lindos sonhos tornam- se pequenos, impossíveis de serem alcançados, jogo-lhe o anzol para ajudá-la, quero pescar os seus sonhos e lhe entregar em uma caixa colorida, flor de idéias, imagens da vida. Menina, nina e dorme, acorda novamente em cordas, notas de Sol que Mi tocam.
Rodrigo Rafael Giovanella, (Kico).
Indaial –SC.
Indaial –SC.
OBS: Este é um texto em ebulição, que nasce da consciência intuitiva deste autor que não planeja, viceja, sim, as suas impressões mimetizadas da sua alma que também se encontra em ebulição. Tal qual um vulcão prestes a emanar o magma denso, o autor a cima tem tudo para provocar rachaduras desconcertantes das placas tectônicas de uma literatura prestes a surgir como continente. Por tanto, a literatura propicia novos lugares em novos surgires, ou seja, novos textos.
Paulo Alfredo da Veiga – Escritor.
Ode ao rebolado
Pedro Jassa
Odeio a bunda dura
nada é se não abjeto
um ridículo completo
que só leva à vergonha
Impossível desejar
algo assim tão anti-estético
que ecarna o patético
numa curva quadrática
A dureza de uma bunda
esboça um futuro tédio
num monólogo estéril
que virá no logo após
O conforto é do macio
e o que é duro incomoda
mesmo estando tão na moda
a dureza é depressiva
Flacidez não é vantagem
mas dureza é suplício
mais vale ter equilíbrio
num balanço sensual
Pedro Jassa
Odeio a bunda dura
nada é se não abjeto
um ridículo completo
que só leva à vergonha
Impossível desejar
algo assim tão anti-estético
que ecarna o patético
numa curva quadrática
A dureza de uma bunda
esboça um futuro tédio
num monólogo estéril
que virá no logo após
O conforto é do macio
e o que é duro incomoda
mesmo estando tão na moda
a dureza é depressiva
Flacidez não é vantagem
mas dureza é suplício
mais vale ter equilíbrio
num balanço sensual
Poesia em revista
Vilmar Carvalho
Onde procurar a poesia da cidade que te mata?
Carregas os ossos de todos os poetas?
Que fibra é tão aérea que te escapas imensamente triste?
Afinal, qual a poesia em revista que te sufocas entre as tetas?
O homem maduro vê pela primeira vez seu peito.
O coração corre como uma avestruz desajeitada
E o balanço da vida... É uma revista das coisas acontecidas
Quando atiravas grandes banhos de esperança...
Sobre os telhados, um pouco abaixo, no rosto das ruas maltratadas,
Um pouco ao lado, nas franjas de cana-de-açúcar que tudo te custas saber...
Onde esta a poesia neste pequeno rasgo de casas?
O tempo todo partido apodrece em que pedaço de nojo?
Por que a sensação de que as mãos de seus poetas mortos
Caíram do braço e encontraram cada um dos pedaços
Da poesia que somente foi?
Onde esta a poesia dos vivos?
Numa impostura: a poesia não é afeta às conjunturas?
E preciso que as mãos da vida encontrem as mãos dos mortos,
Por que a poesia é registro, depósito e sedimento?
O homem maduro vê pela primeira vez seu peito.
Nenhuma cidade do mundo estará pesada de metáforas.
Enquanto esquecida está a poesia, outros conspiram
Um primeiro versinho sobre os auspícios da esperança.
Vilmar Carvalho
Onde procurar a poesia da cidade que te mata?
Carregas os ossos de todos os poetas?
Que fibra é tão aérea que te escapas imensamente triste?
Afinal, qual a poesia em revista que te sufocas entre as tetas?
O homem maduro vê pela primeira vez seu peito.
O coração corre como uma avestruz desajeitada
E o balanço da vida... É uma revista das coisas acontecidas
Quando atiravas grandes banhos de esperança...
Sobre os telhados, um pouco abaixo, no rosto das ruas maltratadas,
Um pouco ao lado, nas franjas de cana-de-açúcar que tudo te custas saber...
Onde esta a poesia neste pequeno rasgo de casas?
O tempo todo partido apodrece em que pedaço de nojo?
Por que a sensação de que as mãos de seus poetas mortos
Caíram do braço e encontraram cada um dos pedaços
Da poesia que somente foi?
Onde esta a poesia dos vivos?
Numa impostura: a poesia não é afeta às conjunturas?
E preciso que as mãos da vida encontrem as mãos dos mortos,
Por que a poesia é registro, depósito e sedimento?
O homem maduro vê pela primeira vez seu peito.
Nenhuma cidade do mundo estará pesada de metáforas.
Enquanto esquecida está a poesia, outros conspiram
Um primeiro versinho sobre os auspícios da esperança.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
A FILHA DELE
=============
O ano, já não sei. Foi no ano em que foi fundado o Jornal Brasil de Fato, e o lançamento do mesmo aconteceu no Auditório Araújo Viana, lá em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, e o mesmo estava totalmente lotado, três ou quatro mil pessoas ocupando cada espacinho possível, e o palco iluminado lá na frente, com uma longa mesa repleta de celebridades que, cada uma por sua vez, levantou-se e, de pé, diante de um microfone suspenso, falou da importância daquele jornal estar nascendo e da importância de tantas coisas neste mundo que todos nós acreditávamos que poderia ser melhor. Íamos de emoção em emoção, aplaudindo cada celebridade daquelas, sem estarmos, de fato, preparados, para o que viria abalar com a maior força de todas os nossos corações – e já não lembro quem tudo ali levantou e falou, mas lá estavam Sebastião Salgado, e Eduardo Galeano, e a Madre Hebe de Bonafini, vinda diretamente da sua Plaza de Mayo com a carga dos seus filhos mortos pela ditadura argentina, e todos tinham sua história de lutas e de resistência, e todos da longa mesa falaram o que iriam falar ... até que, lá na mesa, restaram apenas duas pessoas, uma mulher e um homem.
Até hoje não sei quem era aquele homem, pois ele foi o último a falar, e quando o fez, a emoção apaixonada que tomara conta de todas aquelas milhares de pessoas um pouco antes fez com que nenhum de nós prestasse atenção a ele – e não há que se dizer que havia ali tantos milhares de mal-educados, por terem feito tal coisa com aquele homem que ficara para o final, mas já conto o que aconteceu, e penso que não haverá quem não nos absolverá.
A penúltima pessoa a falar, portanto, era uma mulher. Teria cerca de 40 anos, era clara, um pouco loira, muito bonita, com um jeito de doçura e amplidão que a gente costuma imaginar nas mães, um pouco cheinha dentro de um simples vestido florido que lhe dava um jeito de primavera, e como eu, penso que quase a totalidade daquele grande público não fazia idéia de quem ela poderia ser. No seu jeito bonito e seguro, suave e doce, ela caminhou até o microfone suspenso, e com grande simplicidade, falou para todos nós:
- A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”
- A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”
Enquanto ela tomava fôlego para continuar a sua fala, um silêncio de pedra caiu no grande auditório, e penso que, como eu, cada um de nós fazia uma rápida conferência das suas memórias, olhando incredulamente para aquela linda mulher e comparando a sua imagem com outras imagens conhecidas, fotos famosas em todo o mundo, de um homem tão lindo por fora quanto por dentro, imortalizado pelas lentes de Alberto Korda e de outros, e penso que, como aconteceu em mim, ao mesmo tempo aconteceu com todo o mundo, e houve aquele instante em que “caiu a ficha”, e antes que a mulher pudesse continuar a sua fala, o silêncio de pedra espocou nos mais vibrantes aplausos que já ouvi em minha vida, como fogos de artifício na beira do mar em noites de Ano Novo, e aquele imenso público foi tomado por tal intensidade de amor por aquela mulher que ficara ali sentada um tempão, incógnita e bonita no seu vestido simples e florido, que já nada mais se ouviu do que ela tentou falar.
Diante de nós, em carne e osso, estava Aleida Guevara, a filha do Che, e penso que muita gente fez o que eu fiz: obedecendo ao coração, sem pensar em mais nada, saí às cegas, descendo as altas arquibancadas em direção ao palco, disparando o flash da minha pobre máquina fotográfica até o fim, tentando fixar de alguma forma aquele momento para sempre.
Havia um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam, porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima, a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de ter vivido coisa igual.
Havia um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam, porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima, a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de ter vivido coisa igual.
Foi por conta de Aleida Guevara que não ficamos sabendo quem era o último homem que falou, mas penso que não faz mal – ele deve ter entendido que há forças que são maiores que todas as outras.
Então, o evento acabou, e milhares de pessoas foram saindo dali, mas algumas centenas ficaram, e os guardas não podiam nos liberar para irmos até ela, mas, irmãos como agora éramos, entregávamos a eles nossas máquinas fotográficas para que a fotografassem mais de perto para nós – e então fez ela sinal para que nós nos aproximássemos, e os seguranças ajudaram a nos organizar em fila.
Aleida Guevara, linda, serena e doce, aconchegante como uma mãe dentro do seu vestido colorido, ficou ali naquele lugar até que o último de nós pudesse trocar uma palavra com ela, pegar seu autógrafo, pousar para uma foto ao seu lado. Ela tinha a compreensão das coisas incompreensíveis – ela nos entendia. Foi uma noite para nunca mais esquecer. Tenho a foto daquele dia pendurada na parede da sala da minha casa.
Vi-a, de novo, dois ou três anos depois, em Caracas, no Fórum Social Mundial, e o amor que ela suscitava era o mesmo. Hoje faz 40 anos que assassinaram o seu pai. Não podia deixar de contar esta história.
Blumenau, 09 de Outubro de 2007.
Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora
Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora
terça-feira, 16 de outubro de 2007

MEU PÉ DE JACATIRÃO E AS BORBOLETAS DE QUINTANA
Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor - lc.amorim@ig.com.br)
É manhã de domingo e o dia está triste, cinzento. O sol não saiu. Abro a janela e vejo meu pé de jacatirão com suas flores vermelhas, brancas e dessas duas cores misturadas, muito vivo. Nos dias de sol vou aguá-lo, pois o calor faz as pétalas de suas flores murcharem. E me vejo fazendo a mesma coisa hoje, carinho desnecessário, pois o sol não veio. E as borboletas também não virão, penso.
Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor - lc.amorim@ig.com.br)
É manhã de domingo e o dia está triste, cinzento. O sol não saiu. Abro a janela e vejo meu pé de jacatirão com suas flores vermelhas, brancas e dessas duas cores misturadas, muito vivo. Nos dias de sol vou aguá-lo, pois o calor faz as pétalas de suas flores murcharem. E me vejo fazendo a mesma coisa hoje, carinho desnecessário, pois o sol não veio. E as borboletas também não virão, penso.
Então me lembro de um poema de Quintana, o menino Quintana, nosso menino Quintana, sempre ele: “Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo o retrato de uma borboleta. / As cores, as de seu desejo. / Pintou, ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder e galhos para descansar. / ... / Nesse dia, ele viu o vôo de uma borboleta / (vôo de borboleta pode transformar qualquer dia em domingo).”
Então me dou conta de que meu dia triste já se iluminou com as cores do jacatirão, me dou conta de que posso pegar as cores das pétalas da minha amiga árvore, mais todas as cores do sol que não veio e pintar borboletas esvoaçantes dentro dos meus olhos e dentro do meu coração.
E deixo minhas borboletas alçarem vôo para fora do meu olhar e pousarem em meu pé de jacatirão. Percebi, então, que aquele não era um dia qualquer: era uma manhã de domingo, iluminada e feliz, com as minhas flores de jacatirão e as borboletas de Quintana.Só ele, o “passarinho” Quintana, o nosso poeta menino, para me devolver minha manhã de domingo. Como sempre, ele tinha razão do alto dos seus cem anos de poesia neste mundo de Deus e no outro mundo de Deus, para onde ele foi fazer poesia para os anjos. Nada como um vôo de borboleta para transformar qualquer dia em domingo, mesmo que esse dia seja mesmo domingo e mesmo que essas borboletas sejam pintadas com as cores do sol e das flores de jacatirão, dentro dos olhos de um poeta triste, para alegrar o seu coração. *******************************************************
Visite o Portal PROSA, POESIA & CIA.do Grupo Literário A ILHA, emHttp://br.geocities.com/prosapoesiaeciaLá está a revista Suplemento Literário A ILHA, a revista eletrônica Literarte e dezenas deseções como Grandes Mestres da Poesia,Autores de SC, Literatura Infantil, antologiascomo Todos os Poetas, O Tema do Poema,Feira de Contos, Crônica da Semana, etc.Está no ar o nº 102 do Supl. Lit. A ILHA, versão on-line.
Visite o Portal PROSA, POESIA & CIA.do Grupo Literário A ILHA, emHttp://br.geocities.com/prosapoesiaeciaLá está a revista Suplemento Literário A ILHA, a revista eletrônica Literarte e dezenas deseções como Grandes Mestres da Poesia,Autores de SC, Literatura Infantil, antologiascomo Todos os Poetas, O Tema do Poema,Feira de Contos, Crônica da Semana, etc.Está no ar o nº 102 do Supl. Lit. A ILHA, versão on-line.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
( Mario Holetz)Ciência e Espiritualidade
Leonardo Boff
Teólogo
É de Einstein a frase:"a ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega". Com isso queria dizer que a ciência levada até a sua exaustão termina no mistério que produz assombro e encantamento, experiência típica das religiões. A religião que não se abre a este mistério das ciências deixa de se enriquecer, tende a se fechar em seus dogmas e por isso fica cega. A ciência se propõe explicar o como existem as coisas. A religião se deixa extasiar pelo fato de que as coisas existem. O que é a matemática para o cientista é a oração para o religioso. O físico busca a matéria até a sua última divisão possível, os topquarks, chega aos campos energéticos e ao vácuo quântico. O religioso capta uma energia inefável, difusa em todas as coisas até em sua suprema pureza em Deus.
Ciência e religião se perguntam: O que se passou antes do Big Bang e do tempo? Muitos cientistas e religiosos convergem nesta compreensão: Havia o Mistério, a Realidade intemporal, no absoluto equilíbrio de seu movimento, a Totalidade de simetria perfeita e a Energia sem entropia.
Num " momento" de sua plenitude, Deus decide criar um espelho no qual pudesse ver a si mesmo. Cria aquele pontozinho, bilionesimamente menor que um átomo. Um fluxo incomensurável de energia é transferido para dentro dele. Aí estão todas as possibilidades. Potencialmente todos nós estávamos lá juntos. De repente, tudo se inflacionou e depois explodiu. Surgiu o universo em expansão. O Big Bang, mais que um ponto de partida, é um ponto de instabilidade que no afã de criar estabilidade, gera unidades e ordens cada vez mais complexas como a vida e a nossa consciência.
O Princípio de auto-organização do universo está agindo em cada parte e no todo. Neste universo tudo tem a ver com tudo, formando uma incomensurável rede de relações. Deus é a palavra que as religiões encontraram para esse Princípio, tirando-no do anonimato e inserindo-no na consciência. Para defini-lo não há palavras. Por isso, é melhor calar do que falar. Mas se tudo é relação, então não é contraditório pensar que Deus seja também uma relação infinita e uma suprema comunhão.
Ora, esta idéia é testemunhada pelas tradições religiosas. A experiência judaico-cristã narra continuamente as relações de Deus com a humnidade, um Deus pessoal que se mostra em três Viventes: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O ser humano sente esta Realidade em seu coração na forma de entusiasmo (filologicamente significa ter um deus dentro). Na experiência cristã, diz-se que Ele se acercou de nós, fez-se mendigo para estar perto de cada um. É o sentido espiritual da encarnação de Deus em nossa miséria.
A ânsia humana fundamental não reside apenas em saber de Deus por ouvir dizer, mas em querer experimentar Deus. Atualmente, seria a ecologia profunda, a que cria o melhor espaço para semelhante experiência de Deus. Mergulha-se então naquele Mistério que tudo penetra e tudo sustenta.
Mas para aceder a Deus, não há apenas um caminho e uma só porta. Essa é a ilusão ocidental, particularmente das igrejas cristãs, com sua pretensão de monopólio da revelação divina e dos meios de salvação. Para quem um dia experimentou o Mistério que chamamos Deus, tudo é caminho e cada ser se faz sacramento e porta para o encontro com Ele. A vida, apesar de suas muitas travessias e das difíceis combinações da dimensão dia-bólica com a simbólica, pode então se transformar numa festa e numa celebração. Ela será leve, porque carregada da mais alta significação.
HISTÓRIA DA NORUEGA - Resenha
FURRE, Berge. História da Noruega. Século XX: da Independência ao Estado de bem-estar social. Trad. Kristin Lie Garrubo. Blumenau: Edifurb, 2006. 512 p.: il. (Norden, 1) ISBN 85-7114-169-X
Tendo como cuidadoso revisor principalmente dos conceitos e fatos políticos daquele país, para que nada se perdesse na tradução do texto de Berge Furre, e também como prefacista, o renomado professor Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira, sociólogo, escandinavista e professor de política internacional da Universidade Regional de Blumenau/Brasil, o primoroso Volume 1 da Coleção Norden, que vai nos trazer, basicamente, a Noruega do Século XX, vem recheado de detalhes e surpresas sobre como aquela sociedade agiu para vencer seus desafios e desembocar no novo milênio como uma das sociedades de maior bem-estar social do mundo atual.
Bergen Furre, o autor, além de historiador e político, é professor da Universidade de Oslo, e da sua produtiva carreira e impressionante biografia, ressaltamos o fato de pertencer ao Comitê Nobel, o que escolhe o detentor do Prêmio Nobel da Paz.
O texto do professor Berge Fure tem um “prólogo” histórico, que ocupa 25 páginas, que vai nos trazer uma Noruega vinda a partir dos lendários tempos dos vikings e em todo o livro vamos encontrar ilustrações, desde fotos representativas dos mais importantes momentos políticos do país, até de paisagens e de belíssimas obras de arte que desconhecíamos.
Para nós, que habitamos um país novo, de dimensões continentais e de tão grandes desníveis sociais e econômicos, tendo ainda uma imensa percentagem de analfabetos e analfabetos funcionais, observar como uma pequenina Noruega, assolada pelos gelos dos intensos invernos e por longos períodos sem direito a sol pôde ir caminhando decididamente em direção à resolução dos seus problemas internos e externos, é deveras fascinante. Diríamos que, ao longo de um século, o povo norueguês como que elaborou um “contrato social” amplo, que abrangeu toda a sociedade, partindo de acertos e erros em suas muitas movimentações políticas internas e externas. Pensamos que, para tornar mais claro o que pretendemos dizer, é necessário primeiramente situar a Noruega dentro da Geografia deste planeta.
Quase no extremo norte da Europa (além dela só vamos encontrar a Islândia - com sua grande Groelândia) e as congeladas planícies que levam ao Pólo Norte), com mais ou menos a metade do seu território já situado dentro do Círculo Polar Ártico, ela tem um formato comprido e estreito, e se limita, na sua parte sul, em grande parte com a Suécia, e tendo ao norte uma pequena área limítrofe em contato com a antiga União Soviética, e possuindo bem mais ao norte, em pleno Oceano Glacial Ártico, a propriedade do arquipélago de Svalbard, além de mais de 55.000 ilhas – o que lhe dá um imenso litoral voltado para o movimentado mar do Norte, onde transitam incontáveis navios pesqueiros e outros, além de submarinos atômicos. O piscoso Mar do Norte foi palco, durante o século XX, de amplas disputas pelo poder das áreas consideradas como de plataformas continentais de outros países, como a Inglaterra e a Dinamarca, por exemplo, tendo-se, em tal período, se chegado a acordos também em tal assunto, tanto quando à divisão das áreas de pesca quanto às rotas livres de passagem de navios e submarinos internacionais.
São inúmeros os fatos políticos e outros relatados nas 512 páginas desse livro, e há que pinçar um ou outro para ilustrar esta que pretende ser uma pequena amostra de tão vasta e ampla obra. Escolhemos lembrar um dos fatos que vai assolar esse país hoje tão próspero no decorrer da Primeira Guerra Mundial: com tamanho litoral, a Noruega possuía uma imensa frota de navios com a capacidade de grande tonelagem, considerando-se o pequeno tamanho do seu território - e foi o país mais atingido de todos proporcionalmente quanto à perda de frota – ao final da guerra, 143 navios seus tinham sido postos a pique, o que significava quase 50% (cinqüenta por cento) da sua tonelagem, a maior perda proporcional que qualquer país teve, na ocasião (pág. 91 a 93).
Outra atitude política curiosa desse pequeno e corajoso país: em abril de 1949, entra ele como membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), e, como tal, passa a sentir-se, diríamos, como um país atlanticista, e não mais europeu – suas lealdades passam a ser dirigidas aos outros componentes de tal organização, em detrimento, diversas vezes de outros países da Europa, como Turquia ou Grécia, devido aqueles países, mesmo sendo do mesmo continente, não participarem da mesma organização. (p. 262)
O que mais chama a atenção no livro, no entanto, é como se vai construindo o já falado “contrato social” que vai transformar a Noruega num Estado de Bem-Estar Social. Acertando e errando, o país vai fazendo suas tentativas, e é impressionante como o Estado, paulatinamente, “vai tomando para si a responsabilidade pela segurança social e financeira dos seus cidadãos”. [1]
Para nós, que vivemos num país onde a população beira os duzentos milhões de habitantes, às vezes dá-nos a sensação de que estamos a observar uma Liliput, durante a leitura de tal obra. Tendo a Noruega hoje uma população de 4,5 milhões de habitantes, achamos no livro afirmações assim: “o crescimento demográfico aumentou durante a guerra”, e, logo em seguida: “Mais de 70.000 crianças nasceram em 1946, um recorde imbatível.” (p. 203) Tais dados levam-nos a reflexões, fazem com que paremos para pensar mais sobre como num país com reduzida população é possível saber-se coisas que nunca sequer imaginamos no nosso país – que no ano tal, por exemplo, havia na Noruega um cômodo para cada 1,5 pessoa viver, e que no ano tal, já havia um cômodo para cada pessoa viver, precisas estatísticas que dão todo um encanto à obra, como o caso de um único sítio que existia em montanha tão inacessível que a ele “só se subia ou descia usando um cabo suspenso ou uma escada que se lançava paredão abaixo” mas que mesmo assim criou-se toda uma preocupação em como fornecer energia elétrica a ele, quando o país passa a usar tal energia maciçamente. (p. 248)
Então, numa terra onde já se havia criado toda uma preocupação para com cada cidadão que lá vivia, de repente ainda se descobre que ela como que está ancorada sobre um mar de petróleo! Os primeiros barris do precioso líquido são extraídos em 1971 (p. 316), e é tão grande a riqueza descoberta, que há como que se redimensionar tudo, e superar crises inesperadas, e repensar uma vida ainda melhor para os cidadãos de um país que há tantas décadas já vinha sempre tentando aprimorar o que seria uma vida ideal para cada morador, mesmo que tenha feito tal coisa com acertos e erros, como já falamos.
Vale a pena ler o livro com a história de um pequeno país que tentou e conseguiu direcionar seus maiores interesses para o bem estar da sua população, e que conseguiu seus objetivos. De fácil e agradável leitura, “História da Noruega” nos leva a outras reflexões: seria possível fazer num país como o nosso, tão diferente daquele em tão diferentes ângulos, chegar-se a um resultado semelhante, se resolvêssemos, também, apostar em como que um “contrato social” de bem estar para a nossa população? Esta reflexão primeira e básica nos leva a outras, e a outras... quiçá muitas pessoas venham a ler tal livro! Talvez, se muitos de nós fizermos as mesmas reflexões, acabemos chegando a conclusões parecidas e possamos começar a mudança de que tanto a nossa gente e o nosso país precisam!
Blumenau, 13 de setembro de 2007.
Urda Alice Klueger
Historiadora e escritora
[1] Semelhante pensamento permeia grande parte do livro.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
OS CAMPOS DE ÉRICO VERÍSSIMO III
- Rua de Meninos
(Para Loreci Hintz e Eurico Rapachi, da Livraria Ponto do Livro, em Cruz Alta/Brasil)
As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos! Mesmo antes de aqueles campos serem os campos de Érico Veríssimo, milhares de anos antes, meninos vinham à luz por ali, em grande sintonia com toda a beleza daquela natureza, e pezinhos morenos de pequenos meninos pisavam na relva boa do verão ou na geada da relva dos invernos, mesmo naquele tempo em que ainda não havia ruas, e, quem sabe, sequer havia caminhos ou trilhas!
O tempo correu, e pés descalços e calçados de botas e patas de cavalos e de gado foram abrindo sempre mais caminhos no verdor daquela relva, e lá no começo do outro século, quando Érico Veríssimo nasceu, decerto que já as ruas estavam definidas no lugar onde estão hoje, lá naquela cidade de Cruz Alta que foi o berço daquele menino que, segundo soube lá, tinha como avô um homem que era tão amado que lhe fizeram uma estátua na praça[1], e um pai que ele viria a retratar nos seus livros com o nome de Capitão Rodrigo Cambará, e quem é íntimo do Capitão Rodrigo Cambará não irá estranhar as benfeitorias modernas que ele introduziu na casa antiga onde seu menino viria a nascer. E aquele menino veio à luz numa casa bonita, numa rua que ainda não tinha asfalto mas que já era aquela que agora está lá, e provavelmente foi aquela a primeira rua da qual ele guardou lembrança na vida.
Penso na minha própria vida: eu deveria ter algo como 39 ou 40 meses quando começo a me lembrar de tantas coisas, e como me lembro vividamente das coisas de então, inclusive da rua onde vivia! Penso: que idade teria aquele menino Érico Veríssimo quando, pela primeira vez, deu-se conta que vivia no cruzamento de duas ruas, pois então talvez já existisse o cruzamento? Quando, pela primeira vez, olhou por uma janela, ou pela porta, e deu-se conta de que havia uma rua lá fora, e guardou-a no seu coração para sempre? Pois eu, mesmo tendo saído há décadas da rua que foi a primeira que lembro, quando alguém me pergunta, ainda sempre digo: “Sou da rua Tal”. Será que foi assim com aquele menino que um dia vicejou ali naquela casa tão bonita, e como foi? Estaria ele no colo da mãe, do pai Capitão Rodrigo, quem sabe de um padrinho, ou do avô que era como um santo? Ou, quem sabe, num dia de chuva, ele espiou cuidadosamente o grande mistério da Natureza lá fora, e muito encolhidinho numa beirada de janela, o coração aos saltos, deu-se conta de que ali havia uma rua? Que eu saiba, ele não escreveu a respeito – talvez tenha contado para algum amigo, quando, um dia, em terras distantes ... Talvez tenha lembrado daquela rua quando escrevia textos, assim como eu faço... É provável que aquela seja uma rua importante dos seus romances... Ele partiu tão cedo, já não dá para perguntar, já não dá para saber.
O fato é que aquela foi a rua de Érico Veríssimo, e um dia, como há milhares de anos acontecia, ele andou por ali pisando de leve com pezinhos, que se não eram morenos, assim o ficaram por conta do tanto sol que ilumina aquele lugar, e andando por aquela rua ele carregou sua lousa e foi para a escola, e por ela, mais tarde, ia trabalhar na farmácia que era fronteiriça à casa da namorada Mafalda – um dia, também por aquela rua, ele partiu para ir conquistar o mundo e o meu coração. E andou em outras, por ali, e decerto, como os meninos lá do outro século, caçou de bodoque e funda, e roubou laranja em quintais alheios, pois sempre tem laranjas nos quintais dos seus romances, e não podemos esquecer que Cruz Alta é Santa Fé... Ah! Ruas de Érico Veríssimo, que são ruas de meninos! Cada menino é único, assim como Érico Veríssimo o foi, e neste momento sinto uma aguilhada de dor por pensar que os meninos de Bagdá já não são únicos, pois já não o são...
As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos. E há ruas próximas, por ali, e praça próxima, onde decerto ele brincou, e onde tantos outros meninos decerto também brincaram. Depois que ele se tinha ido daquelas ruas que eram dele, depois que ele estava lá fora conquistando o mundo, um outro menino que seria como um pássaro emplumado de azul e branco também veio à luz ali numa rua daquelas, e se Érico Veríssimo tinha dentro da alma uma florada incomparável de livros que deixariam o mundo encantado, aquele outro menino tinha um coração todo cheio de estrelas! E, já que aquela terra era cheia de ruas de meninos, também o menino das estrelas no coração pisou por ali com seus pezinhos morenos, como há tantos milênios por ali pisavam outros pezinhos, mesmo quando aqueles campos ainda não eram os campos de Érico Veríssimo! Só que, como já fazia mais de meio século que Érico Veríssimo aprendera um dia a pisar naquelas ruas, elas tinham se tornado as ruas de Érico Veríssimo, e nunca mais isto vai poder mudar – e o menino das estrelas, que também era um menino único, pisou as ruas de Érico Veríssimo que são ruas de meninos, pois onde meninos podem pisar melhor que nas ruas que são de Érico Veríssimo?
Blumenau, 30 de Setembro de 2007.
Urda Alice Klueger - Escritora
- Rua de Meninos
(Para Loreci Hintz e Eurico Rapachi, da Livraria Ponto do Livro, em Cruz Alta/Brasil)
As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos! Mesmo antes de aqueles campos serem os campos de Érico Veríssimo, milhares de anos antes, meninos vinham à luz por ali, em grande sintonia com toda a beleza daquela natureza, e pezinhos morenos de pequenos meninos pisavam na relva boa do verão ou na geada da relva dos invernos, mesmo naquele tempo em que ainda não havia ruas, e, quem sabe, sequer havia caminhos ou trilhas!
O tempo correu, e pés descalços e calçados de botas e patas de cavalos e de gado foram abrindo sempre mais caminhos no verdor daquela relva, e lá no começo do outro século, quando Érico Veríssimo nasceu, decerto que já as ruas estavam definidas no lugar onde estão hoje, lá naquela cidade de Cruz Alta que foi o berço daquele menino que, segundo soube lá, tinha como avô um homem que era tão amado que lhe fizeram uma estátua na praça[1], e um pai que ele viria a retratar nos seus livros com o nome de Capitão Rodrigo Cambará, e quem é íntimo do Capitão Rodrigo Cambará não irá estranhar as benfeitorias modernas que ele introduziu na casa antiga onde seu menino viria a nascer. E aquele menino veio à luz numa casa bonita, numa rua que ainda não tinha asfalto mas que já era aquela que agora está lá, e provavelmente foi aquela a primeira rua da qual ele guardou lembrança na vida.
Penso na minha própria vida: eu deveria ter algo como 39 ou 40 meses quando começo a me lembrar de tantas coisas, e como me lembro vividamente das coisas de então, inclusive da rua onde vivia! Penso: que idade teria aquele menino Érico Veríssimo quando, pela primeira vez, deu-se conta que vivia no cruzamento de duas ruas, pois então talvez já existisse o cruzamento? Quando, pela primeira vez, olhou por uma janela, ou pela porta, e deu-se conta de que havia uma rua lá fora, e guardou-a no seu coração para sempre? Pois eu, mesmo tendo saído há décadas da rua que foi a primeira que lembro, quando alguém me pergunta, ainda sempre digo: “Sou da rua Tal”. Será que foi assim com aquele menino que um dia vicejou ali naquela casa tão bonita, e como foi? Estaria ele no colo da mãe, do pai Capitão Rodrigo, quem sabe de um padrinho, ou do avô que era como um santo? Ou, quem sabe, num dia de chuva, ele espiou cuidadosamente o grande mistério da Natureza lá fora, e muito encolhidinho numa beirada de janela, o coração aos saltos, deu-se conta de que ali havia uma rua? Que eu saiba, ele não escreveu a respeito – talvez tenha contado para algum amigo, quando, um dia, em terras distantes ... Talvez tenha lembrado daquela rua quando escrevia textos, assim como eu faço... É provável que aquela seja uma rua importante dos seus romances... Ele partiu tão cedo, já não dá para perguntar, já não dá para saber.
O fato é que aquela foi a rua de Érico Veríssimo, e um dia, como há milhares de anos acontecia, ele andou por ali pisando de leve com pezinhos, que se não eram morenos, assim o ficaram por conta do tanto sol que ilumina aquele lugar, e andando por aquela rua ele carregou sua lousa e foi para a escola, e por ela, mais tarde, ia trabalhar na farmácia que era fronteiriça à casa da namorada Mafalda – um dia, também por aquela rua, ele partiu para ir conquistar o mundo e o meu coração. E andou em outras, por ali, e decerto, como os meninos lá do outro século, caçou de bodoque e funda, e roubou laranja em quintais alheios, pois sempre tem laranjas nos quintais dos seus romances, e não podemos esquecer que Cruz Alta é Santa Fé... Ah! Ruas de Érico Veríssimo, que são ruas de meninos! Cada menino é único, assim como Érico Veríssimo o foi, e neste momento sinto uma aguilhada de dor por pensar que os meninos de Bagdá já não são únicos, pois já não o são...
As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos. E há ruas próximas, por ali, e praça próxima, onde decerto ele brincou, e onde tantos outros meninos decerto também brincaram. Depois que ele se tinha ido daquelas ruas que eram dele, depois que ele estava lá fora conquistando o mundo, um outro menino que seria como um pássaro emplumado de azul e branco também veio à luz ali numa rua daquelas, e se Érico Veríssimo tinha dentro da alma uma florada incomparável de livros que deixariam o mundo encantado, aquele outro menino tinha um coração todo cheio de estrelas! E, já que aquela terra era cheia de ruas de meninos, também o menino das estrelas no coração pisou por ali com seus pezinhos morenos, como há tantos milênios por ali pisavam outros pezinhos, mesmo quando aqueles campos ainda não eram os campos de Érico Veríssimo! Só que, como já fazia mais de meio século que Érico Veríssimo aprendera um dia a pisar naquelas ruas, elas tinham se tornado as ruas de Érico Veríssimo, e nunca mais isto vai poder mudar – e o menino das estrelas, que também era um menino único, pisou as ruas de Érico Veríssimo que são ruas de meninos, pois onde meninos podem pisar melhor que nas ruas que são de Érico Veríssimo?
Blumenau, 30 de Setembro de 2007.
Urda Alice Klueger - Escritora

Pérolas do preconceito
Rubens da Cunha
O humor é uma arte de resistência. Muitos defendem que o humor não pode ter limites. Pessoalmente, sou bastante libertário neste assunto, acho que o humor pode muito, mas não pode tudo.
Recebi alguns e-mails com o título de “Pérolas do Enem”. O Enem é o Exame Nacional do Ensino Médio, uma prova que o Ministério da Educação aplica para diagnosticar a educação brasileira. Algumas incorreções, sobretudo gramaticais, viram peças de humor, não apenas de internautas, mas de gente como Jô Soares, que já abriu o programa diversas vezes com as “pérolas” dos alunos.
Não consigo rir. Acredito que, nesse assunto, o humor atravessou a fronteira do bom senso. Para mim, o humor só é válido quando a “vítima” ri de si, ou, mesmo que não goste, sabe exatamente por que estão escrachando seu comportamento. Acho difícil que alguém que tenha escrito “O serumano no mesmo tempo que constrói também destrói, pois nos temos que nos unir para realizarmos parcerias” consiga rir de suas inadequações, tanto gramaticais quanto de coerência.
É neste ponto que o humor deixa de ser uma peça de resistência e passa a ser instrumento da opressão. Meia dúzia de pretensos donos da língua pegam frases descontextualizadas e humilham aqueles que não têm domínio sobre a norma culta. Humilhação pura e simples. Afinal, os estudantes que prestaram o exame não são celebridades fajutas, nem políticos fanfarrões nem novos-ricos ridículos. São pessoas que, de uma forma ou outra, estão se expressando como podem, e se escrevem “errado” (bem entre aspas, mesmo) é muito mais por culpa de um sistema educacional excludente e indiferente do que por falta de interesse ou coisa que o valha.
Rir da ignorância gramatical alheia é reforçar ainda mais o abismo social que separa as classes sociais deste País, é reforçar toda uma estrutura política, social, ideológica que permanece no poder. A cada gargalhada que a platéia do Jô Soares dá quando ele repete as frases do Enem; a cada e-mail transmitido com as “pérolas” e com os comentários infames dos “sabedores da língua” (bem entre aspas, mesmo), aumenta mais a exclusão e, principalmente, diminui a força do humor como arte, pois ele passa a servir para uma minoria se divertir, quando a maioria segue seu próprio rumo, virando-se num analfabetismo funcional, que tem lá o seu próprio humor.
Normalmente, quem usa o “não-saber” do outro para rir e sentir-se superior tem a certeza de que a sua inteligência nunca vai ser questionada. Pura balela. Na mesma proporção que alguém tece um comentário torpe sobre a ignorância alheia, pode receber de volta um comentário torpe sobre a própria ignorância. O humor é uma estrada perigosa. Num dia você atropela, no outro é atropelado. Rir daquilo que o outro não sabe é fácil. Quero ver é rir daquilo que você mesmo não sabe, rir da própria ignorância. E isso, os que organizam e repassam as “peroras do Enem”, parecem não conseguir.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Lágrimas do Itajaí
O peixe
triste
solta
lágrimas
imperceptíveis
nas águas
turvas
de garrafas pet.
Papéis
voam como pipas
em busca de um lugar
ao sol.
Sacolas, argolas, gaiolas e pneus,
juntam-se no balançar das águas do rio,
amontoados de coisas que produzimos,
inimagináveis,
rimos a rima sem nenhuma poesia,
não há lugar para as pedras no rio,
não há lugar para os peixes,
não há lugar,
não há lugar
para a vida.
Rodrigo Rafael Giovanella, (Kico).
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
(Mario Holetz)É tempo de celebrar! Feliz Primavera!
Elaine Tavares
Os povos pagãos, nas suas culturas, sempre me pareceram mais sábios. Eles tinham como costume celebrar a vida nos equinócios e solstícios, rendendo homenagens às estações. E isso não era coisa à toa. É porque cada estação traz com ela suas bênçãos. No girar desta bola azul, as comunidades vão experimentando a beleza do outono, a introspecção do inverno, a volúpia do verão e a alegria da primavera. É ainda nesse lento rodopiar que a terra e as gentes vão encontrando seu momento de plantar, colher, descansar e dançar.
Pois hoje, nesta nossa parte do mundo, é o equinócio da primavera. No ritmo das estações, tudo começa a vicejar. A voz dos passarinhos fica mais forte, as flores embestam a aparecer e, a despeito de todas as dores e lutas, também as pessoas parecem florescer em festa.
Aqui estamos nós no imenso jardim vendo cada coisa que plantamos no inverno, apontar pela terra afora. Então é hora de dançar a dança dos deuses, fazer “pago à Pacha Mama”, reverenciar Inti (o sol), saudar Ñanderu, o grande pai Guarani, que com Jacy e Kuaray tornam esse mundo tão belo. É tempo de dizer o nome da beleza para que ela nos tome inteira como crêem os Navajos.
Um dia, bem longe, os povos do leste invadiram nossa Tekoá (terra-casa) e soterraram a cultura autóctone, trazendo novo deus e desconhecidos santos. Mas, sempre é tempo de recuperar nossa condição primeira, de povo de Abya Yala, e retomar velhos rituais. A caminhada dos tempos já tratou de mostrar que na profusão de deuses e deusas que co-existem nas mais variadas culturas, o que fica como certeza final é de que esta terra é sagrada e cabe a nós cuidar para que ela siga firme, com saúde e um lugar bom de viver. A Eko Porã do povo Guarani(terra boa e bonita para todos) .
Esse tempo ainda não vingou, proliferam as guerras, as gentes precisam migrar de um lado para outro buscando sobreviver em meio à destruição do capital. Mas, em cada ser que vive, brilha a indefectível esperança. Dia virá em que todos poderão dançar para Inti, Pacha Mama, Viracocha, Quetzalcoalt, Istsá Natlehi, Wakan Tanka, Krisna, Jesus, braços dados, irmãos. E a terra será bela, e o banquete repartido. Paraíso. Socialismo. Eko Porã.
Enquanto isso, celebremos, pois. Os passarinhos nos chamam, as flores perfumam a vida e nós temos a obrigação de render graças. Porque nada no mundo pode ser melhor que caminhar na direção da beleza, da vida plena, da alegria, da Eko Porã. Em meio à tormenta, cantamos, dançamos e plantamos jardins porque confiamos, como Jeremias, diante da sua terra arrasada, que ainda vingarão flores neste lugar...
Feliz primavera! Viva Abya Yala..
sexta-feira, 21 de setembro de 2007

REFLEXIVAS VI
Hoje não sei quem sou
Amanhã também não saberei
Preciso retornar
Observar mais de detalhe
Perceber na passagem das retas
Rapidamente desenhadas e alteradas
Quando se tornaram tortuosas
As memórias do ontem
Que hoje me parecem
Nunca terem existido
Hoje não sei o que quero
Sei que não é o que passou
Ontem fui um fato ou palavras
Hoje sou referencia absoluta
Tornei-me valor de troca
Transformando a noção de vida
Em ordem de palavras certas
Ditas em momentos errados
Amanha também não saberei
Sentir os pequenos detalhes
Definidos em suas semelhanças
Absolutamente essenciais e sombrias
Quando os segredos escapam
Do seu reino secreto e soberano
No silencio do esquecimento
Hoje não sei quem sou
Porque nada restou para amanha
Que mereça ser lembrado
Isabel Mir
Setembro/2007
Hoje não sei quem sou
Amanhã também não saberei
Preciso retornar
Observar mais de detalhe
Perceber na passagem das retas
Rapidamente desenhadas e alteradas
Quando se tornaram tortuosas
As memórias do ontem
Que hoje me parecem
Nunca terem existido
Hoje não sei o que quero
Sei que não é o que passou
Ontem fui um fato ou palavras
Hoje sou referencia absoluta
Tornei-me valor de troca
Transformando a noção de vida
Em ordem de palavras certas
Ditas em momentos errados
Amanha também não saberei
Sentir os pequenos detalhes
Definidos em suas semelhanças
Absolutamente essenciais e sombrias
Quando os segredos escapam
Do seu reino secreto e soberano
No silencio do esquecimento
Hoje não sei quem sou
Porque nada restou para amanha
Que mereça ser lembrado
Isabel Mir
Setembro/2007

Águas Amargas
Mergulhe no Rio Itajaí
Para encontrar a água amarga
Onde o rio descarrega sua vida
Descendo corredeiras tortuosas
Saltando pedras e arbustos baixos
Deixando seu hálito fético
Agarrado nos espinhos das margens
E só atravessar a ponte
Grande, sólida, de cinza sujo,
Com metais que o observam e desejam
Assim a cidade o circunda
Com suas casas e gentes
Se apossando a direita e esquerda
De onde também se vê a torre da Igreja
Do leito sujo e rugoso
Onde o rio chora esquecido
Derramando água amarga
Isabel Mir
Setembro/2007
DEONÍSIO DA SILVA : CATARINENSE MAIS ILUSTRE, IMPOSSÍVEL!
Você já ouviu falar de Deonísio da Silva? Você já ouviu a expressão "A retirada de Laguna?" O que será que uma coisa tem com a outra? Vamos começar pela segunda: a "A retirada de Laguna" é um livro escrito pelo Visconde de Taunay no século XIX, sobre um episódio da Guerra do Paraguay. Eu li esse livro na adolescência, mas lembro dele pouco mais que a terrível sede que sentiam os soldados brasileiros assolados pelo cólera-morbo, sede essa que só podia ser saciada por umas poucas laranjas existentes. Segundo o Visconde de Taunay, nossas gloriosas tropas retiraram-se de Laguna (uma lá do Paraguay) vitoriosamente.
Mas você já ouviu falar de Deonísio da Silva? Não? Bem feito! É um dos mais ilustres catarinenses que já produzimos, e Santa Catarina nem se lembra que ele existe. E você já ouviu falar no "Prêmio Casa de las Américas"? É, sem dúvida, o maior prêmio concedido nas Américas a um escritor. Tem uma versão em espanhol e uma em português, e jurados de verdade, como Saramago, por exemplo: é prêmio sério, nada tendo a ver com certos prêmios de cartas marcadas que costumamos ver por aí.
O que tem uma coisa a ver com a outra, no entanto? Tem que o Deonísio da Silva é um catarinense, nascido quase nas bocas das minas de Siderópolis e criado quase nas roças de Jacinto Machado, alfabetizado por D. Edite Zanatta e sabendo muito bem o que é poluição de mina de carvão, exclusividade nossa de Santa Catarina. Por sorte, eu tive o prazer de tê-lo conhecido quando ainda tinha 60 cm de cintura, na época em que amávamos aos Beatles e aos Rolling Stones. Como meu espaço aqui é pequeno, vamos logo saber mais coisas: Deonísio começou pelo Seminário de São Ludgero e terminou como Doutor em Letras pela USP - quer dizer, terminou não, porque não há término para alguém como ele. Eu estou toda boba, aqui porque vai sair meu 14º livro, e Deonísio já publicou 30; se fui traduzida para uma linguazinha ou outra, Deonísio já o foi para as mais importantes; se um livro meu quase virou novela das seis da Globo, Deonísio têm às pencas peças de teatro, adaptações para cinema e televisão, e tudo o mais que vocês imaginarem. Onde ele publica toda a semana? Nos mais diversos lugares, que vai desde o Jornal do Brasil até a Revista Caras, aquela que a gente lê quando vai no médico. Podem olhar que até lá o Deonísio está! (Vai ter muita catarinense "chique" adorando tal informação!)
Bem, e o Deonísio papou, bem na frente de todo o Brasil, o "Prêmio Casa de las Américas", em 1992. Pena que ele não transformou o valor do prêmio em dólares, naqueles tempos de inflação, para a gente saber hoje quanto foi que ganhou; mas foi o equivalente ao salário de 36 meses de um médico. O livro? "Avante, soldados, para trás!", vai contar, sob nova ótica, a Retirada de Laguna, aquela do Visconde de Taunay, só que desta vez de uma forma real, não heróica, e quando estive no Paraguay, agora em Janeiro, deitada dentro de uma trincheira de Lomas Valentina, lugar onde houve uma batalha com 100.000 mortos (quase todos brasileiros), como me era forte na lembrança o livro do Deonísio! "Avante, soldados, para trás" saiu em espanhol com o título de "Adelande, soldados, atrasa!", e de cara vendeu 20.000 exemplares. E não podemos esquecer que o júri de tal prêmio, naquele ano, foi presidido nada mais nada menos que por José Saramago. No Brasil, o romance já vendeu sete edições sucessivas e também passou dos 20 000 exemplares. Em Santa Catarina, não sei. Porque quase ninguém em Santa Catarina nem sabe que têm um conterrâneo assim ilustre. Deonísio vem, anda por aí, bebe nos bares, escreve correndo suas colunas para os jornais dos grandes centros num notebook, em qualquer mesa de restaurante, e ninguém dá bola. Estamos todos muito preocupados com os nossos umbigos. Quando é que pode nos passar pela cabeça que um cara que foi "Prêmio Casa de las Américas" , personalidade mundial, pode estar a respirar o mesmo ar que a gente? E olhem que ele é bonitão, mulheres, charmoso! Fiquem de olho! E Santa Catarina não se anima a dar a ele nem o título de Filho Pródigo, o que, com certeza, ele não é.
Blumenau, 09 de Fevereiro de 2004.
Urda Alice Klueger
O caminho para Samarra
Leonardo Boff
Um soldado da antiga Bassora, na Mesopotânia, cheio de medo, foi ao rei e lhe disse:"Meu Senhor, salva-me, ajuda-me a fugir daqui; estava na praça do mercado e encontrei a Morte vestida toda de preto que me mirou com um olhar mortal; empresta-me seu cavalo real para que possa correr depressa para Samarra que fica longe daqui; temo por minha vida se ficar na cidade". O rei fez-lhe a vontade. Mais tarde o rei encontrou a Morte na rua e lhe disse:" O meu soldado estava apavorado; contou-me que te encontrou e que tu o olhavas de forma estranhíssima". "Oh não", respondeu a Morte, "o meu olhar era apenas de estupefação, pois me perguntava como esse homem iria chegar a Samarra que fica tão longe daqui, porque o esperava esta noite lá".
Essa estória é uma parábola da aceleração do crescimento feito à custa da devastação da natureza e da exclusão das grandes maiorias. Ele nos está levando para Samarra. Em outras palavras: temos poquíssimo tempo à disposição para entender o caos no sistema-Terra e tomar as medidas necessárias antes que ela desencadeie consequências irreversíveis. Já sabemos que não podemos mais evitar o aquecimento global, apenas impedir que seja catastrófico. A nivel dos governos, não se está fazendo nada de realmente significativo que responda à gravidade do desafio. Muitos crêem na capacidade mágica da tecno-ciência: no momento decisivo ela seria capaz de sustar os efeitos destrutivos. Mas a coisa não é bem assim. Há danos que uma vez ocorridos produzem um efeito-avalanche.
A natureza no campo físico-químico e mesmo as doenças humanas nos servem de exemplo. Uma vez desencadeada, não se pode mais bloquear uma esplosão nuclear. Rompidos os diques de Nova Orleães nos USA, não é mais possível frear a invasão do mar. Na maioria das doenças humanas ocorre a mesma lógica. O abuso de alcool e de fumo, o excesso na alimentação e a vida sedentária começam a princípio prudizindo efeitos sem maior signficação. Mas o organismo lentamente vai acumulando modificações, primeiramente funcionais, depois orgânicas e, por fim, atingindo certo patamar, surge uma doença não mais reversível.
É o que está ocorrendo com a Terra. A "colonia" humana em relação ao organismo-Terra está se comportando como um grupo de células que, num dado momento, começa a se replicar caoticamente, a invadir os tecidos circundantes, a produzir substâncias tóxicas que acaba por envenenar todo o organismo. Nós fizemos isso, ocupando 83% do planeta.O sistema econômico e produtivo se desenvolveu já há três séculos sem tomar em conta sua compatibilidade com o sistema ecológico. Hoje nos damos conta de que ecologia e modo industrialista de produção que implica o saque desertificante da natureza são contraditórios. Ou mudamos ou chegaremos à a Samarra, onde nos espera algo sinistro.
A Terra como um todo é a fronteira. Ela coloca em crise os atuais modos de produção que sacrificam o capital natural e as formações sociais construidas sobre o consumismo, o desperdício, o mau trato dos rejeitos e a exclusão social.
Três problemas básicos nos afligem: a alimentação que inclui a água potável, as fontes de energia e a superpopulação. Para cada um destes problemas não temos soluções globais à vista. E o tempo do relógio corrre contra nós. Agora é o momento de crise coletiva que nos obriga a pensar, a madurar e a tomar decisões de vida ou de morte.
A bacia de Pilatos
Leonardo Boff*
A nação está peplexa e indignada. Na cara da maioria dos políticos e particularmente dos jornalistas que acompanharam o caso do Senador Renan Calheiros e sabiam as manobras escusas que usava a partir de seu cargo de presidente da Casa, para se manter no poder, se estampava decepção e abatimento. E com razão, pois, o Senado se transformou num sinédrio, cheios de herodianos, aliados do poder dominante. Esses votaram a favor e 6 se abstiveram. Exatamente o número que Renan precisava para escapar-se da punição. Abster-se é dizer não à cassação. Supõe-se que muitos destes votos, secretos, vieram do PT e aliados. O Senador Mercadante revelou seu voto de abstenção. A lider do PT no Senado, Ildeli Salvati, cabalava votos em favor de Renan e deve ter se abstido, facilitando a vitória do acusado.
A propósito de falta de decoro por permitir que um lobista pagasse suas contas pessoais referentes ao filho que tivera com sua amante – isso se chavama antigamente de adultério público - descobriram-se muitas outras irregularidades graves, atestadas pela polícia federal e pelo jornalismo investigativo da televisão. Esta foi ao local em Alagoas, documentou em som e em cores as mentiras e falsas alegações de Calheiros o que comprovava ainda mais sua falta de decoro. Além do mais mentiu aos Senadores e sonegou informações e documentos ao conselho de ética.
Aliados do absolvido falaram em vitória da democracia. Que democracia? Esta convencional no Brasil, encurtada e farsesca, montada em cima de conchavos, do uso do poder público em benefício própro, infectada de tráfico de influência e de desvio de dinheiros públicos?
O que envergonha os cidadãos é verem Senadores, alguns velhos provectos, sem qualquer dignidade, verdadeiros mafiosos do poder, voltarem as costas à sociedade e fazerem-se cegos e surdos ao clamor das ruas. Estão tão enjaulados em seus privilégios na rodoma do Senado que nem lhes importa o que a midia e a opinião pública pensam deles.
Mas o que envergonha mesmo é a recaida de membros do PT. São pecadores públicos contumazes. Já haviam antes enviado a ética nem sequer para o limbo mas diretamente para o inferno. Agora repetiram o ato pecaminoso. Por isso são desprezíveis como Pilatos. Este se acovardou diante do povo e condenou Jesus. Mas antes fez um gesto que passou à história como símbolo de pusilanimidade, de covardia e de falta de caráter. Diante do povo, lavou as mãos com água. Essa bacia de Pilatos foi ressuscitada no Senado. Mas a água não é água. São lágrimas dos indignados, dos cansados de ver injustiças e dos dilacerados diante da contínua impunidade.
A " onorebile famiglia Calheiros" tem novos membros em sua máfia. Todos os que se abstiveram, podem acrescentar a seus nomes o sobrenome de Calheiros. Como revelou publicamente seu voto, o Senador Aloisio Mercadante merece agora ser chamado de Aloisio Mercadante Calheiros. Pelo esforço da argumentação em favor da não cassação de Renan, a Senadora Ildeli Salvatti merece que lhe apodemos de Ideli Salvatti Calheiros. Ela fez a figura inversa da mulher do covarde Pilatos que o advertiu: "não te comprometas com este justo pois sofri muito hoje em sonhos por causa dele". Ela e outros devem estar sofrendo muito, sim, roidos pela má consciência. Esse sofrimento transparece em seus olhos revirados e em seus rostos desfigurados.
O povo não merece ser representado por espíritos menores, faltos de ética, desavergonhados e esquecidos de que são meros delegados do poder popular. Que mostrem a cara, que falem ao povo, que se expliquem por quê, diante de tantas provas dos relatórios da comissão de ética e do clamor das ruas, puderam agir de forma tão traiçoeira.
*teólogo e professor emérito de ética da UERJ
O CÉU DE ÉRICO VERÍSSIMO
(Para Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira)
O céu de Érico Veríssimo é um céu de passarinhos! É um céu azul tão azul como só o céu dos trópicos pode ser, embora quando a gente chegue lá, debaixo do pedaço de céu que é o céu de Érico Veríssimo, o Trópico de Capricórnio já esteja muito longe, muito mais que mil quilômetros ao Norte, e aquele lugar seja tão alto que parece que, se a gente subir bem no alto da coxilha mais alta e se esticar bem, na ponta dos pés, talvez se possa tocar com a mão aquele azul que só existe em céus dos trópicos.
A maior parte da gente do mundo pensa uma coisa errada: que as regiões tropicais são quentes. Há regiões tropicais quentes, sim, mas há áreas de regiões tropicais onde o frio grassa como grassa lá sob o céu de Érico Veríssimo, e há tanto frio e geada que os homens usam roupas que penso que talvez sejam únicas no mundo, grossos novelos de lã em forma de poncho com barras de franjas, e folgadas calças enfiadas em botas de cano alto e protetores chapéus que devem, uma vez ou outra, acho, protegê-los até de neves
E o céu de Érico Veríssimo é um céu de passarinhos! Tanto frio, e as árvores por cima da gente são verdes como se não houvesse inverno, e têm folhas, e têm bagas, e tem musgos, e devem ter ninhos – pois se o céu é um céu de passarinhos, como é que não vai haver ninhos? Há ninhos, lá, como não os há em nenhum lugar, ninhos brancos e azuis, ninhos de frisos, e de beirados, e de varandas, e de cercas, e de janelas azuis, ninhos azuis e brancos de gatos nas varandas de ladrilho vermelho, pois céu como aquele não há outro, nem ninhos assim também não os há por aí, porque os passarinhos do céu de Érico Veríssimo são passarinhos encantados, e gostam tanto daquele céu e daqueles ninhos que ficam gostando de azul com branco para o resto da vida, e nem poderia ser de outro jeito!
Lá, quando vem a noite, ela não fica escura como nos outros lugares: a noite do céu de Érico Veríssimo também é encantada como quase tudo naquele lugar, e a noite daquele céu é revestida de estrelas enormes, muito próximas, tão próximas que é possível ver-se o passeio dos satélites e dos asteróides por dentre elas, e então os passarinhos daquele céu ficam tão fascinados por terem um céu assim para viver, e ninhos assim também, que se deitam na grama, braços cruzados atrás da nuca, peito aberto para poderem ver com o coração, e espiam as estrelas, e os satélites, e os asteróides, e sabem que de noite é de veludo negro aquele lugar de pendurar estrelas, aquele que de dia fica daquele inexplicável azul que é o azul do céu de Érico Veríssimo, tão azul que talvez só lá mesmo seja assim!
Ah! Como um céu assim só pode ser um céu de passarinhos! Foi sob aquele céu que Érico Veríssimo nasceu e viveu um bom tempo, e ali também nasceram passarinhos tão únicos no universo quanto ele o foi - mas também, sob um céu como aquele, só poderiam nascer, mesmo, passarinhos únicos!
Eu posso dizer que sou uma pessoa que tem tido muitos privilégios na vida: um dia, escondidinha na penumbra de um Vale, bem quando começava a espiar a vida, uma estrela pulou de dentro de um livro e me iluminou com tamanha calidez e brilho que aquela luz ficou para toda a vida, e aquela estrela me fora mandada por Érico Veríssimo – meia vida depois fui, pessoalmente, lá ver aquele céu! Era o céu de Érico Veríssimo e era um céu de passarinhos! Senti tudo tão de perto, com tamanha força – uns e outros me disseram que Érico Veríssimo partiu para sempre, mas também para sempre aquele lá será o céu dele, e sempre será lá um céu de passarinhos e de ninhos brancos e azuis como em nenhum outro céu não há – e há passarinho daquele céu que pulou para dentro do meu peito, como aquela estrela um dia, e não importa o que faça, nem aonde vá, que sempre estará aqui dentro de mim o céu de Érico Veríssimo, que é um céu de Passarinho!
Blumenau, 04 de setembro de 2007.
Urda Alice Klueger
Escritora
Escritora
terça-feira, 4 de setembro de 2007

(Nestor Jr.)
Acima De Tudo
Mesmo que meu orgulho não me deixe assumir meus erros
ou que minha vaidade seja superior ao meu amor.
Um único sorriso teu
Faz meu orgulho desmoronar
eu assumo todos os meus erros sem querer saber das conseqüências.
eu assumo todos os meus erros sem querer saber das conseqüências.
Uma única palavra que sair de tua boca
rasga minha vaidade ao meio partindo assim meu ódio
nesse momento minha alma se engrandece
eu dou um beijo em teu rosto
isso é o bastante para que eu seja perdoado.
rasga minha vaidade ao meio partindo assim meu ódio
nesse momento minha alma se engrandece
eu dou um beijo em teu rosto
isso é o bastante para que eu seja perdoado.
Uma única lagrima tua faz meu corpo estremecer
mas a tua alegria me anima novamente.
mas a tua alegria me anima novamente.
Minha vida nem mais me pertence já que vivo em função do nunca e do nada,
só me alimento de sonhos. Mais jamais direi adeus a ti
pois nossas almas se entrelaçam formando uma só e assim será até a eternidade.
só me alimento de sonhos. Mais jamais direi adeus a ti
pois nossas almas se entrelaçam formando uma só e assim será até a eternidade.
Rafael Silvio Mafra

(Nestor Jr.)
Em Busca Da Paz
Estou sozinho na escuridão,
Meus pés estão acorrentados,
Minhas mãos estão amarradas e a dor ta me consumindo;
Eu estou resistindo mas isso vai além das minhas forças
Eu fiz o meu máximo.
Meus pés estão acorrentados,
Minhas mãos estão amarradas e a dor ta me consumindo;
Eu estou resistindo mas isso vai além das minhas forças
Eu fiz o meu máximo.
Nesse momento uma lagrima caiu dos meus olhos
Uma lança em chamas atravessou meu peito.
Uma lança em chamas atravessou meu peito.
Eu corri para os braços da morte e beijei seus lábios.
Eu passei por cima do abismo.
Eu passei por cima do abismo.
Meus gritos de dor ainda ecoam nas mentes solitárias
Assim será até que eu descanse em paz.
Assim será até que eu descanse em paz.
Rafael Silvio Mafra
(Mario Holetz)Vanusa e os recomeços
Sempre gostei de Vanusa, a cantora. Trata-se de uma voz que se perdeu por aí, seja por escolhas pessoais, seja por escolha deste ser invencível e invisível que se chama mercado. É provável que quem tenha menos de 30 anos nunca a ouviu cantar. Pode até saber que se trata daquela mulher ultraloura que vez em quando aparece na televisão. Vanusa, igual a muitos artistas populares nos anos 70/80, virou uma personagem de si mesma. Alguém que envelheceu, mas ficou presa no imaginário de um tempo já remoto, em que os artistas populares, sobretudo os cantores, ainda tinham algo a dizer. Hoje, como se sabe, a maioria virou monossilábico. Qualquer verso com mais de três palavras é complexo demais para nossos popstars.
Vanusa fez muito sucesso com aquela que talvez seja a mais feminista das canções produzidas no Brasil: “Mudanças”. Começava com uma voz triste, mas firme em suas decisões: “Hoje eu vou mudar, vasculhar minhas gavetas, jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos”. No final da canção, quase como um refrão, Vanusa declama um texto da forma mais intensa possível: “(...) Suave como a gaivota e ferina como a leoa, tranqüila e pacificadora, mas ao mesmo tempo irreverente e revolucionária, feliz e infeliz, realista e sonhadora, submissa por condição mas independente por opinião, porque sou mulher com todas as incoerências que fazem de nós o forte sexo fraco”.
Ainda gosto muito desta canção. Compreendo racionalmente seus clichês, seu discurso pretensamente libertador da condição feminina, o jogo quase artificial das palavras, mas deixo tudo isso de lado, pois a canção me emociona desde muito jovem.Daqui a dois dias, começam as “Manhãs de Setembro”. Título de outra canção emblemática de Vanusa. Desta vez um pouco menos contundente que “Mudanças”. Novamente a letra fica naquele limiar entre o popular e a auto-ajuda: “Fui eu que em primavera só não viu as flores e o sol nas manhãs de setembro. Eu quero sair. Eu quero falar. Eu quero ensinar o vizinho a cantar nas manhãs de setembro”.
Ainda não sei como serão as manhãs de setembro. É provável que muito parecidas com as de agosto. Um pouco mais quentes e azuis, espero. É provável que eu passe setembro todo sem ouvir canções que me façam bem, canções que me tragam um certo alento, um certo conforto, para além da rotina-agulha que me fura o corpo.Tudo indica que a máquina do mundo continuará seus trançados de ferro sobre minha vida. Talvez o que me resta, enquanto resisto mais um pouco, é continuar resgatando cantores e cantoras esquecidos. Apoiando-me em suas frágeis palavras. Setembro chega logo. Dois dias. O futuro, apesar de previsível, pode trazer surpresas. Até porque Vanusa também disse numa canção menos conhecida: “Nos meus gestos me confundi com tantas falhas e incertezas, mas afinal eu descobri meu futuro: meu caminho é ter sempre que me procurar!”
Setembro é mês bom para os recomeços.
Rubens da Cunha

Esta é a Festa de San Fermín na Espanha
Três loucos minutos de corrida entre o labirinto de vielas medievais, onde centenas de homens privados momentaneamente de qualquer bom senso, razão, civilidade, e até de humanidade, disputam com algumas dezenas de touros a gloria de chegarem vivos, ou sem ferimentos, até o centro da Plaza de Toros.
Nós mulheres espanholas adoramos o espetáculo, pois é uma maneira de selecionar, separar os imbecis, os incapazes, os humanos irracionais, dos poucos homens com H maiúsculo, e muito disputados atualmente, porque estes últimos certamente, serão bons companheiros, amantes, maridos, pais, filhos.
O que as mulheres espanholas fazem é a seleção cultural das espécies
Postado por Isabel Mir, artista plástica, espanhola, que escolheu um brasileiro para casar, e o Vale do Itajaí para morar.
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