terça-feira, 14 de agosto de 2007

(Mario Holetz)




Meu amor por ti


Silvio Rafael Mafra

Mesmo que não escutem o que eu falo
Saibas que eu te amo.
Mesmo que não ouça meu coração bater com alegria e esperança
Saibas que eu te amo
Mesmo que tu não me amasses
Eu te amaria
Mesmo que eu não fale
Saibas que eu te amo
Mesmo magoado
Não consigo deixar de te amar
Nem mesmo a morte pode acabar com meu amor por ti
Por isso peço perdão
Por um dia não crer no amor
No que hoje é meu único motivo de esperança
Meu amor por ti
Mesmo que de minha boca saiam palavras de ódio
Saibas que te amo.
Hoje tenho coragem de dizer
Eu te amo.

Dedicada a minha mãe - Lidia Hermes Mafra.
(Mário Holetz)

Mudei

Resolvi ir embora
Não importa como
Apenas vou partir

Resolvi gritar
Coisas do adeus
Para antigas mágoas

Deixo tudo para trás
Não tenho nada mesmo
Apenas a minha raiva

Levo comigo o último grito
Do breve adeus da partida
Mas deixo as eternas mágoas

Mudei de casa
Mudei de amores
Mudei de mim

Isabel mir
Agosto/2007
(Isabel Mir)








Auto retrato

Não sou forçada a nada
Mas forjada e ferro e fogo
Não separo a luz do calor
Mas junto o nada com dor

Quanto mais me enrosco
Mais sólida me torno
Quanto mais me fecho
Mais perto me vejo

Se despenco pelas noites
Encontro fim no amanhecer
Se despenco pelos dias
Encontro o fim no anoitecer

Sou estátua de aço
Mas pareço ferro velho
Sou forma e leveza
Mas pareço um peso



isabel mir
agosto 2007
Pode o capitalismo ser suicida?

Leonardo BoffTeólogo

Desde o neolítico por volta de 10 mil anos atrás o meio-ambiente da Terra era mais ou menos estável, como pode ser comprovado cientificamente analisando as camadas de gelo do permafrost. A grande transformação correu com o processo industrialista, especialmente no após guerra e com o surpreeendente crescimento populacional. Começaram a se lançar anualmente na atmosfera bilhões e bilhões de toneladas de gáses de efeito estufa (dióxido de carbono, metano, óxido de azoto e ozono) a ponto de o sistema natural não conseguir mais absorvê-los. É a causa fundamental do aquecimento global. Este não seria um novo ciclo natural da Terra mas algo induzido pelas práticas humanas. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) elaborou modelos teóricos que nos permitem previões confiáveis. Segundo ela, de agora até o ano 2100 as temperaturas se elevarão entre 1,8 a 6 graus Celsius, estabilizando-se por volta de 2-3 graus. O nível do mar subiria de 18 a 59 centrímetros. Tudo isso à condição de se fazerem a partir de agora pesados investimentos (cerca de 460 bilhões de dólares anuais) para estabilizar a temperatura da Terra. Sem esse empenho coletivo, desapareceriam cerca de 20-30% das espécies animais e vegetais e o número de vítimas humanas poderiam chegar à cifra dos milhões. As secas, a desertificação e a salinização dos solos privaria de água potável cerca de três bilhões de pessoas fazendo crescer em 600 milhões os que já passam fome. Os "refugiados ecológicos" serão milhões que não aceitariam passivamente o veredito de morte sobre suas vidas e invadiriam regiões mais favoráveis à vida.

Estas não são profecias de mau agouro mas apelos dirigidos a todos os que alimentam solidariedade generacional e amor à Casa Comum. Há um obstáculo cultural grave: estamos habituados a resultados imediatos, quando aqui se trata de resultados futuros, fruto de ações postas agora. Como afirma a Carta da Terra:"as bases da segurança global estão ameaçadas; estas tendências são perigosas mas não inevitáveis". Estes perigos somente serão evitados caso mudemos o modo de produção e o padrão de consumo. Esta reviravolta civilizatória exige a vontade política de todos os países do mundo e a colaboração sem exceção de toda rede de empresas transnacionais e nacionais de produção, pequenas, médias e grandes. Se algumas empresas mundiais se negarem a agir nesta mesma direção poderão anular os esforços de todas as demais. Por isso, a vontade política deve ser coletiva e impositiva com prioridades bem definidas e com linhas gerais bem claras, assumidas por todos, pequenos e grandes. É uma política de salvação global.

O grande risco, visto por muitos, é na lógica do sistema do capital globalmente articulado. Seu objetivo é lucrar o mais que pode, no tempo mais curto possível, com a expansão cada vez maior de seu poder, flexibilizando legislações que limitam sua voracidade. Ele se orienta pela competição e não pela cooperação. Diante das mudanças paradigmáticas se vê confrontado com esse dilema: ou se auto-nega, mostrando-se solidário com o futuro da humanidade e muda sua lógica e assim corre o risco de ir à falência ou se auto-afima em sua busca de lucro, desconsiderando toda compaixão e solidariedade, mesmo passando por cima de montanhas de cadáveres e da Terra devastada. Muitos temem que, fiel à sua natureza de lobo voraz, o capitaismo se faça suicida. Prefere morrer e fazer morrer a perder. Oxalá a vida supere a lógica.
Prato Gordo da Vida

Leite não vem da caixinha
mas a vaca não reclama
e pastando pasta sozinha.

Frango não vem do pacote
mas a galinha não reclama
e ciscando dá na cama
para qualquer galo também.

Presunto não vem da bandeja
mas o porco não reclama
fuçando come lama
para engordar o prato de alguém.

A comida não vem da prateleira
mas o homem não reclama
aproveitando a promoção
enche o carrinho de banana
e se farta para o mês.

O homem não veio do além
mas se encontra em qualquer lugar
compra-se e vende-se
come e é comida
no prato gordo da vida
tentando, tenta se encontrar.


Rodrigo Rafael Giovanella (Kico).

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Essas coisas que andam no ar

Amilcar Neves, escritor


"Pontes", ele falou, "tanto quanto aviões, às vezes também caem".

Esta é a vantagem de ter uma feira de frutas, legumes, verduras, biscoitos, queijos e doces na esquina de casa, ali adiante, toda manhã de segunda-feira: poder conversar com o Velho da Feira, como ele é conhecido. Dizem que se chama mesmo é Venâncio da Fonseca, mas isto ninguém sabe nem está preocupado em averiguar. Ninguém sabe igualmente a que horas ele chega na feira, pois, por mais cedo que se vá até lá, ele já está a postos, escolhendo, discutindo preços e qualidade, reservando. Correm apostas no bairro sobre esse horário dele, e o bolão anda alto, pelo que asseguram os entusiastas da fezinha.

Este é um segredo inconfessável: toda segunda-feira acordo tão cedo quanto um motorista de ônibus e me toco para a feira sob o pretexto de abastecer a geladeira. Não imaginem, porém, que se trata de uma feira enorme, de dobrar esquina e ocupar transversais. Não, não é nada disso, são apenas duas barracas, na verdade duas kombis, uma do Ireno, que fornece os produtos manufaturados (de manus + facere, latim, fazer à mão, em português), a outra, do Davi, que se encarrega de suprir de verdes, raízes e correlatos as casas próximas.

Acordo cedo e o primeiro que vejo é o chapéu surrado de cor indefinida. Sob o feltro, sua figura impávida e tranqüila, em gestos compassados e voz pausada, apalpa gêneros à venda e comenta assuntos momentosos. O Velho da Feira (ou o respeitável Venâncio da Fonseca, descendente direto do Marechal Deodoro, dizem) certamente deve sua aparência vetusta muito mais aos invariáveis terno escuro, gravata marinho, camisa impecavelmente branca, meias pretas e sapatos de couro brilhante do que aos registros da sua carteira de identidade.

O inconfessado, agora: corro cedo à feira toda semana com o intuito único de ouvir do Velho suas histórias e comentários para poder passá-los em seguida para o papel (mentira, ele é que passaria para o papel, se fosse o caso, utilizando-se de uma elegante caneta-tinteiro de abastecer no tinteiro, jamais de um desses modelos de substituir cartuchos de tinta, modernidade demais para quem venera penas de pavão - eu me limito a cravar as palavras na tela do computador) e despachar o texto para o jornal, já estourando o prazo fatal das tardes de segunda a fim de que este espaço das quartas seja honrado como Deus manda.

"Aviões caem e se esborracham mesmo quando já estão no solo", ele pondera, "enquanto as pontes estão se esfarelando por aí, mesmo nos grandes países desenvolvidos." Escolhe com cuidado voluptuosas maçãs de São Joaquim. "Grandes edifícios desabam, atingidos ou não por aviões." Lúbricas cebolas de Ituporanga. "Não se pode confiar cegamente em geringonças que contrariam a natureza." Uma chimia de banana de Tijucas, rubra e doce como todos os lábios. "Essas coisas que andam no ar, por exemplo." Morangos frescos e lascivos de Taquaras, o distrito de Rancho Queimado. "O homem é da terra, foi feito para viver na terra, no solo, no chão. A ele não é dado elevar-se mais do que a altura da qual possa cair sem se machucar. Violando esta lei, seus riscos se multiplicam e, quando essas coisas caem, porque foram feitas para um dia cair, levam junto um bando inteiro de gente." Pára e me olha:

- Já lhe passou pela cabeça que todo o concreto do mundo pode estar chegando ao fim do seu prazo de validade, isso que os técnicos chamam de vida útil? Já pensou o que vai ruir por aí afora? Vai faltar noticiário para contar os mortos, confie em mim - acaricia com dedos expertos um maracujá de Araquari, fruto da langorosa flor-da-paixão, e me dá as costas.


quinta-feira, 9 de agosto de 2007

(Nestor Jr.)




Esquilos no indaiá


Ofício em forma de atas
atam-me as mãos,
sufocam-me as gravatas,
gravam-me palavras.

Poucos me deixariam viver
virando as folhas
que me carimbaram
e viram
eu crescer.

Protocolo desnecessário
Todo vocabulário inútil
Dentro, entro
é intragável.

Quem sabe ainda no fundo
eu possa dizer daquilo
que eu vi
de quilos,
esquilos
comendo a última palmeira indaiá
em Indaial.


Rodrigo Rafael Giovanella (Kico).

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

(Nestor Jr.)


Sinto Vergonha de Mim

Cleide Canton / Rui Barbosa

Sinto vergonha de mim
Por ter sido educador de parte desse povo,
Por ter batalhado sempre pela justiça,
Por compactuar com a honestidade,
Por primar pela verdade
E por ver este povo já chamado varonil
Enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
Por ter feito parte de uma era
Que lutou pela democracia,
Pela liberdade de ser
E ter que entregar aos meus filhos,
Simples e abominavelmente
A derrota das virtudes pelos vícios,
A ausência da sensatez
No julgamento da verdade,
A negligência com a família ,
Célula-mater da sociedade,
A demasiada preocupação
Com o "eu" feliz a qualquer custo,
Buscando a tal felicidade
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim,
Pela passividade em ouvir,
Sem despejar meu verbo,
A tantas desculpas ditadas
Pelo orgulho e vaidade
Para reconhecer um erro cometido
A tantos floreios para justificar
Atos criminosos
A tanta relutância
Em esquecer a antiga posição
De sempre "contestar",
Voltar atrás
E mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
Pois faço parte de um povo
Que não reconheço, enveredando por caminhos
Que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
Da minha falta de garra,
Das minhas desilusões
E do meu cansaço.

Não tenho para onde ir
Pois amo este meu chão,
Vibro ao ouvir meu hino
E jamais usei a minha Bandeira
Para enxugar o meu suor
Ou enrolar meu corpo
Na pecaminosa manifestação
De nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
Tenho tanta pena de ti,
Povo brasileiro. (Cleide Canton)

"De tanto ver triunfar as nulidades,
De tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver crescer a injustiça,
De tanto ver agigantarem-se os poderes
Nas mãos dos maus,
O homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
A ter vergonha de ser honesto". (Rui Barbosa)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

(DDA)











A.



DDA





Antecipado o inverno solitário e tortuoso;


Por dias e dias o organismo vai acordar querendo voltar a dormir.


Será fato que os dias serão cinzento-ruins.


É hora de pintar o segredo de azul.


Mesmo no momento fingido de não ter nenhum.


A estória que era vívida,


Hoje é oca e ferida.


Na furtada despedida.


O gosto amargo da vida.


No beijo último,


Nada para abraçar


Somente teu jeito tão lúcido;


E meu grito preso no A.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007







Leilão!


Nanci Merizi Moskorz


Quem somos nós?

Quem somos nós que viramos cinzas?

Quem somos nós que viramos gás?

Somos recicláveis?

Empalháveis?

Eternos?

Somos sómente paternos ou maternos.

Vivemos no inferno, ou vamos para lá?

Temos que morrer de terno ou podemos ficar o dia inteiro de chinelos?

Voce que escolhe pode bater o martelo!
Conversa com meu pai


Pois é pai
Faz tempo que a gente não se encontra
Não conversa
Não deixa nossos lábios
Saborear as palavras
As frases, muitas elas feitas, os sentimentos
Até as birras políticas.

Faz tempo que a gente não pára
Para se ver e passear
Pisando, na imensidão do tempo, devagar
As pedras tão conhecidas da calçada
Daquelas belas ruelas desta pequena cidade
Que me ensinaste a amar e sentir.

Pois é pai,
Nem aquela passagem obrigatória no “Tingás”
Saboreando uma bebida entre uma discussão moral
Um desabafo ético
Um cochicho saudável

Pois é pai, faz tempo...
Deixa-me abraçar-te
No meu pensamento de ti
Por a conversa em dia
Falar de quem passa
O olhar de esquina, o assobio
Aquelas esbeltas pernas de mulher bonita.

Deixa-me aconchegar-me
Na saudade das tuas palavras
No teu sorriso
Na tua face austera
Radiosa.

Deixa-me sentir as tuas mãos
Fortes, rudes, meigas e sensíveis
Por tão amares a natureza.

Deixa-me envolver-me
Nos teus braços.
Como raios cintilantes do teu carinho
Da alegria da vida que vi partir
Aqui presente.

Pai,
Deixa-me dar-te uma medalha,
Eu sei que não queres,
Conheço a tua modéstia.
Mas autoriza este teu filho
Fazer-te uma singela homenagem
É apenas uma singela medalha
No metal mais rico - o amor.
Composta por uma flor
O Sol, a Lua e o Mar,
E colocar este testemunho
No teu leito eterno
Junto do meu coração.

Nunca te agradeci, pai
Também nunca gostaste de agradecimentos
Nem queres merecimentos
Mas pai...
Obrigado por estares aqui
Sempre ao meu lado
Pela tua proteção.

Obrigado pai
Pela semente que sou eu
Desculpa-me qualquer rebeldia.
Pois é pai
Hoje voltamos a passear
A ser tudo como antes
A caminhar juntos ao mar
No silêncio
Na musicalidade das ondas
Enroladas na areia da fé e do amor

E enquanto a pena corria suavemente
Na saudade da tua memória
Na certeza da tua presença
Uma lágrima feliz
Apresentou-se
Escrevendo Amo-te pai.

MarcoStruve
(Nestor Jr. - Poster)



BARTOLOMEU – COMO OUVIR SINOS



(Para Bartolomeu Moreira Monteiro)

Ontem aconteceu uma coisa que para mim foi como ouvir sinos tocando ao cair da tarde: Bartolomeu, meu sobrinhozinho, do alto dos seus sete anos, ficou sócio da Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Muller!
Que revoadas no tempo que aquela notícia me fez ter; que sabor de delícia me trouxe à boca! Primeiro, por Bartolomeu ser ainda tão novinho: no tempo em que eu era criança precisava-se ter 12 anos para poder se associar à mesma então vetusta biblioteca, que perdeu 30.000 livros em 1983, na Grande Enchente, o que me fez chorar, quando lá cheguei depois da baixa das águas, e vi os livros que tanto amara amontoados, inchados de tanta água, irrecuperáveis, aguardando o caminhão do lixo!
E Bartolomeu, que para mim, no começo, fora apenas uma foto de recém-nascido no sítio da Internet de uma maternidade de São Paulo, de repente já é sócio da primeira ampla biblioteca da minha vida! Como foi que tudo aconteceu tão depressa?
Na sua curta vida, Bartolomeu já viveu em diversos lugares deste Brasil, e eu o conheci em julho de 2001, no centro do Rio de Janeiro, quando tinha pouco mais que dois anos, mas já era um espadaúdo menino de grande docilidade, que absolutamente não se importava de ser transportado no leve e ágil carrinho que a minha sobrinha Anna Paula usava para ter facilidade de locomoção no meio daquele trânsito carioca, e ele era simpático como se já fosse um menino grande, e tão loiro quanto as crianças da Itoupava Rega[1]. Bartolomeu também já era corajoso, naquela época: fomos fazer um lanche na Confeitaria Colombo, e depois dos docinhos deliciosos, ele absolutamente não se negou aos maracujás ácidos, aos pedaços de abacaxi cheios de azedume, aos gomos das laranjas que absolutamente não eram doces! Aquele pequeno menino que já parecia saber tanto ainda não aprendera uma coisa: por mais que se pedisse a ele para sorrir na hora das fotografias, ele ficava muito sério esperando o flash – para só depois soltar o riso! Dava de morder na bochecha, de tão querido que era!
De novo o vi pouco depois, quando a bisavó Minervina fez oitenta anos e todos os descendentes do Brasil vieram. Ele era uma doçura de menino, que muito brincou com a priminha Alice no chão de minha sala. Liberei para eles a caixa onde guardo os enfeites de Natal, e apesar de ser outubro, minha casa quase que virou uma casa natalina. Ah! As fotos, as fotos daqueles dias felizes, tão lindas são!
Houve algumas outras viagens, aí no meio, e um acampamento cheio de Sacis-Pererês no verão passado, e agora faz meio ano que Bartolomeu veio morar em Blumenau, e tenho a sensação de que dentro dele aconteceu uma coisa meio chocante: na nova escola, na nova vida, ele é apenas mais um menino loiro, tantos há por estas bandas para onde os alemães e outros imigrantes europeus vieram dar com os costados no século XIX. Mas isto é suposição minha, não tenho como ter certeza.
E então ontem, sem ter o menor preparo no coração, fico sabendo que Bartolomeu se tornara sócio da Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Muller, a mesma pela qual um dia eu ansiara tanto!
O meu sonho de consumo de criança era chegar aos 12 anos para poder me associar àquela biblioteca. Já contei tal coisa em dúzias de entrevistas, mas registro aqui também, pois talvez um dia Bartolomeu venha a gostar de saber. Até os 12 anos, eu havia lido tudo o que havia na minha casa, nos meus parentes, nos meus vizinhos e na minha escola – e isto incluía as Enciclopédias Barsa e Delta Larousse inteiras! E nunca que chegava aos 12 anos, para poder, enfim, ter a mágica carteirinha que viria me abrir as páginas de todos e quantos livros eu quisesse!
E então ontem, aos sete anos, Bartolomeu ficou sócio da Biblioteca dos meus sonhos! Meu, aquilo foi muito lindo de saber, saber que agora as crianças podem se associar às bibliotecas tão logo queiram; saber que aquele menininho que um dia brincou em outubro com os enfeites de Natal já está tratando de reservar para si uma grande florada e uma grande colheita de muitas histórias e livros! Ouvir aquilo, para mim, foi como ouvir sinos tocando no silêncio da tarde!
Parabéns, meu loirinho mais querido do mundo! Ah! Se todas as crianças tivessem sua carteira de sócios de biblioteca aos sete anos!


Blumenau, 07 de fevereiro de 2007.


Urda Alice Klueger
Escritora e tia.
[1] Bairro do interior de Blumenau, que tem como uma das características a quase totalidade de crianças loiras.
Estou enviando este artigo enfurecido para esta semana
Um abraço
Lboff
Que é ter vergonha na cara?
Leonardo Boff - Teólogo
Benjamin Franklin (1706-1790) foi editor, refinado intelectual, escritor, pensador, naturalista, inventor, educador e político. Propunha como projeto de vida um pragmatismo eclarecido, assentado sobre o trabalho, a ordem e a vida simples e parcimoniosa. Foi um dos pais fundadores da pátria norte-americana e participante decisivo na elaboração Constituição de 1776. Neste mesmo ano, foi enviado à França como embaixador. Frequentava os salões e era celebrado como sábio a ponto de o próprio Voltaire, velhinho de 84 anos, ir ao seu encontro na Academia Real. Certa tarde, encontrava-se no Café Procope em Saint-Germain-des-Près, quando irrompeu salão adentro um jovem advogado e revolucionário Georges Danton dizendo em voz alta para todos ouvirem:"O mundo não é senão injustiça e miséria. Onde estão as sancões?" E dirigindo-se a Franklin perguntou provocativamente:"Senhor Franklin, por detrás da Declaração de Independência norte-americana, não há justiça, nem uma força militar que imponha respeito". Franklin serenamente contestou: "Engano senhor Danton. Atrás da Declaração há um inestimável e perene poder: o poder da vergonha na cara (the power of shame)".
É a vergonha na cara que reprime os impulsos para a violação das leis e que freia a vontade de corrupção. Já para Aristóteles a vergonha e o rubor são indícios inequívocos da presença do sentimento ético. Quando faltam, tudo é possível. Foi a vergonha pública que obrigou Nixon renunciar à presidência. De tempos em tempos, vemos ministros e grandes executivos tendo que pedir imediata demissão por atos desavergonhados. No Japão chegam a suicidar-se por não aguentarem a vergonha pública. Ter vergonha na cara representa um limite intransponível. Violado, a sociedade despreza seu violador, pois não se pode conviver sem brio.
Que é ter vergonha na cara? O dicionário Aurelio assim define:"ter sentimento da própria dignidade; ter brio." É o que mais nos falta na política, nos portadores de poder público, em deputados, senadores, executivos e em outros tantos ladrões e corruptos de colarinho branco. Com a maior cara de pau e sem vergonhice negam crimes manifestos, mentem sem escrúpulos nos interrogatórios e mas entrevistas aos meios de comunicação. São pessoas que à força de fazer o ilícito e de se sentir impumes perderam qualquer senso da própria dignidade. Roubar do erário público, assaltar verbas destinadas até para a merenda escolar ou falsificar remédios não produz vergonha na cara. Crime é a bobeira de quem deixa sinais ou permite que seja pego com a boca na botija. Nem se importam, pois sabem que serão impunes, basta-lhes pagar bons advogados e fazer recursos sobre recursos até expirar o prazo. Parte da justiça foi montada para facilitar estes recursos e favorecer os sem vergonha com poder.
No transfundo de tudo está uma cultura que sempre negou dignidade aos índios, aos negros e aos pobres. Roubo-lhes seu valor ético porque a maioria guarda vergonha na cara e tem um mínimo de brio. Como me dizia um "catador de lixo" com o qual trabalhei cerca de 20 anos: "o que mais me dói é que tenho que perder a vergonha na cara e me sujeitar a viver do lixo. Mas não sou "catador", sou trabalhador que com o meu trabalho digno consigo alimentar minha família". Se nossos políticos desavergonhados tivessem a vergonha desse trabalhador, digna e dignificante seria a política de nosso pais.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

(Nestor Jr. - Scratch book 6)





O garoto que podia voar
AlbertoCohen


No palco de sua velhice ele não cultiva mais muitas saudades. Existe uma, no entanto, tão grande e forte que mais do que saudade é presença. Nos olhos surpresos, no riso maroto, na absurda esperança, bem no fundo do espelho ainda mora o garoto que podia voar.

Voava com os pássaros, com as pipas, com os aviões e, principalmente, com a imaginação. O espaço absoluto, sem porteiras, sem donos e sem pecados era o seu lugar, o grande desafio do mais pesado ser o mais leve. Tudo o que contrariava a gravidade o atraía e, afinal, tornou-se trapezista num circo mambembe.

Nos poucos segundos que separavam os trapézios, ele realizava o sonho de Ícaro e pairava na eternidade do desafio de não ter asas e mesmo assim voar. Era uma brisa, uma ave, um presságio, e quase queria não encontrar a outra barra e continuar voando para sempre. A tensão que precedia o início do salto valia pela sensação de não ter corpo, de fazer parte do vento.

Depois, as leis físicas que governam o destino dos homens e não permitem que eles sejam anjos, trouxeram-no para o lugar comum dos que rastejam no universo dos bens de consumo. Tentou ser prático, objetivo, mas apenas sonhou e envelheceu sonhando.

O menino fugiu para dentro do espelho, onde os dois se encontram, todos os dias, sem reclamações nem reprimendas, somente lembranças de um jovem trapezista e histórias de um velho que ainda voa, agora por muito mais tempo e num espaço cada vez maior, nas quimeras infinitas da poesia.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007






A obra “Eclosão” não nega sua estética tridimensional, mas não a prioriza. Faz tempo que o objeto tridimensional está livre do seu tempo histórico, assim me sinto livre para compor esta obra com procedimentos individuais, utilizando todos e quaisquer meios e materiais, para dar a este objeto um aspecto enigmático ou aterrorizante.
O objeto “Eclosão” tem uma autonomia na forma e licença ilimitada na criação, composto apenas por um lençol de malha, textura ovalóide, goma de tecido e a cor vermelha como matéria prima para compor as formas de experimentação, a fim de criar efeitos perceptivos irônicos ou ingênuos com o objetivo de provocar identificações e antagonismos no observador, podendo ainda o objeto assumir uma postura crítica, complacente ou neutra em relação à sociedade industrial ou de consumo.
Isabel Mir
www.isabelmir.com.br
(foto: Isabel Mir)




Ainda estou só
Diante da rampa
Esperando por ele
Estou de costas
Não quero ser percebida
Vou ficar aqui
Esperando por ele
Não vou vaiar
Sei que de nada vai adiantar
Então fico camuflada
Esperando por ele
E se um dia
Ele vier até aqui
E eu puder olhar
dentro dos seus olhos
Finalmente vou pedir
Por favor...
Não quero ser pobre
Mas gostaria de ser burra
Saber o que ele faz
Como faz
E por quem faz
Ta me deixando louca
Por isso não vou vaiar
Vou ficar aqui
diante da rampa
esperando por ele
Que tem o poder
De deixar todo mundo burro
Mas feliz neste país

Isabel Mir
agosto 2007
(Nestor Jr. - Faces)






Quem sou


Rafael Silvio Mafra, 18/05/2007


Eu sou o nada, o inexistente.
Eu sou a voz que entoa em sua mente um grito de agonia.

Sou o abstrato de um coração,
O lado escuro da razão errada.

Eu sou o contrario do mal e o inverso do bem
Que juntos travam uma batalha incessível.

Sou a gota de sangue

que caiu dos pulsos de uma menina

que se cortou por medo da felicidade.

Eu sou a cura pra dor nenhuma,

sou a raiva e é dela que vivo.

Eis que sou a força dos teus pensamentos enlouquecidos e

a ilusão de tua alma abandonada....
(Nestor Jr. - Quartos de pensão)




A insanidade das palavras

Rafael Silvio Mafra


Minha alma reflete a janela quebrada
e seus estilhaços sobre o chão de um escuro quarto de onde escrevo.
É realmente escuro pensar que eu estou sozinho escrevendo pra alguém
que nem conheço, mais que sei que existe.
e que está aqui em pensamentos.
Talvez meus pensamentos sejam a ilusão
de uma alma perdida no tempo que procura onde se esconder
da insanidade que essas palavras refletem.
Meu quarto é escuro e frio mais você o aquece com a singela dor do amor
que plantou no peito como uma estaca incandescente
Reflita sobre teus próprios pensamentos
verás como um surto que tudo está ligado por um fio chamado destino e que ele perde um pedaço cada vez que uma vida se esvai no tempo e não retorna a sua natureza
Eis o que te digo: o sonho acabou e você ainda dorme
o sono eterno aqui do meu lado e o seu corpo está frio como o meu quarto que não recebe a luz do sol
Vou esperar o destino me levar pra perto de ti
novamente e assim renasceremos das cinzas da paixão
e com um beijo selaremos nosso próprio destino
e entrelaçaremos nossas almas insanas para a queima de um passado de tortura.


(Nestor Jr. - Scratch book 5)








"Perdi-me muitas vezes pelo mar


Ignorante da água


Vou buscando uma morte de luz que me consuma..."

Federico Garcia Lorca
(Nestor Jr. - Scratch book)



Com bochechas de lÁPis de cor

E um doce sentimento no peito

Caminhei.

Comprei um sonho.

Comprei um sonho e

Voltei para casa.
Nestor Jr.