quarta-feira, 29 de agosto de 2007

A Comissão Julgadora do Concurso Literário Internacional Mulheres que Escrevem, aprovou para publicação no livro MULHERES, EM PROSA E VERSO, volume 3, a seguinte obra, de vossa autoria: Poetisa (Poesias)

POETISA



Por querer ser poetisa
Tenho o costume
De ler certas palavras
Escritas na incerteza
Que me levam a pensar
Em saídas racionais
Que terminam por
Banalizar o sagrado
Entre palavras lidas
Escritas por tantos amores
Que nos fazem caminhar
Até o refúgio da mente
Onde nas esparsas entretelas
Dos ordenados pensamentos
Encontramos palavras
Que recebem nomes
Para se ajustar nas verdades
E concordar com a insensatez
De quem quer ser poetisa
E indaga a si mesma
Qual a palavra certa
Que me fará poetisa



Isabel Mir
12/06/07

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O verdadeiro choque de civilizações
Leonardo Boff - Teólogo

A expressão "choque de civilizações" como formato das futuras guerras da humanidade foi cunhada pelo fracasssado estrategista da Guerra do Vietnã Samuel P. Huntington. Para Mike Davis, um dos criativos pesquisadores norte-americanos sobre temas atuais como "holocaustos coloniais" ou "a ameaça global da gripe aviária", a guerra de civilizações se daria entre a cidade organizada e a multidão de favelas do mundo. Seu recente livro "Planeta Favela"(2006) apresenta uma pesquisa minuciosa (apesar da bibiografia ser quase toda em inglês) sobre a favelização que está ocorrendo aceleradamente por todas as partes. A humanidade sempre se organizou de um jeito que grupos fortes se apropriassem da Terra e de seus recursos, deixando grande parte da população excluida. Com a introdução do neoliberalismo a partir de 1980 este processo ganhou livre curso: houve uma privatização de quase tudo, uma acumulação de bens e serviços em poucas mãos de tal monta que desestabilizou socialmente os paises periféricos e lançou miilhões e milhões de pessoas na pura informalidade. Para o sistema eles são "oleo queimado", "zeros econômicos", "massa supérflua" que sequer merece entrar no exército de reserva do capital. Essa exclusão se expressa pela favelização que ocorre no planeta inteiro na proporção de 25 milhões de pessoas por ano. Segundo Davis 78,2% das populações dos paises pobres é de favelados (p.34). Dados da CIA de 2002 dava o espantoso número de 1 bilhão de pessoas desempregadas ou subempregadas favelizadas.

Junto com a favela vem toda a corte de perversidades, como o exército de milhares de crianças exploradas e escravizadas, como em Varanasi (Benares) na India na fabricação de tapetes, ou as "fazendas de rins" e outros órgãos comercializados em Madras ou no Cairo e formas inimagináveis de degradação, onde pessoas "vivem literalmente na m"(p.142).

Ao Império norte-americano não passaram desapercebidas as consequências geopolíticas de um "planeta de favelas". Temem "a urbanização da revolta" ou a articulação dos favelados em vista de lutas políticas. Organizaram um aparato MOUT (Military Operations on Urbanized Terrain: operações militares em terreno urbanizado) com o objetivo de se treinarem soldados para lutas em ruas labirínticas, nos esgoto, nas favelas, em qualquer parte do mundo onde os interesses imperiais estejam ameaçados. Será a luta entre a cidade organizada e amedrontada e a favela enfurecida. Um dos estrategistas diz friamente:"as cidades fracassadas e ferozes do Terceiro Mundo, principalmente seus arredores favelados, serão o campo de batalha que distinguirá o século XXI; a doutrina do Pentágono está sendo reconfigurada nessa linha para sustentar uma guerra mundial de baixa intensidade e de duração ilimitada contra segmentos criminalizados dos pobres urbanos. Esse é o verdadeiro choque de civilizações"(p.205).

Será que os métodos usados recentemente no Rio de Janeiro com a militarização do combate aos traficantes nas favelas, com verdadeiras execuções, já não obedece a esta estratégia, inspirada pelo Império? Estamos entre os paises mais favelizados do mundo, efeito perverso provocado por aqueles que sempre negaram a reforma agrária e a inclusão social das grandes maiorias pois lhes convinha deixá-las empobrecidas, doentes e analfabetas. Enquanto não se fizerem as mudanças de inclusão necessária, continuará o medo e o risco real de uma guerra sem fim.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

(Mario Holetz)

Escravos de CARIJÓS

Antes de tudo
existia o nada?

Pensavam os europeus:
nada aqui existe,
a não ser o ouro,
a terra gorda,
solitária e triste.

Porém, o índio
já o habitava
plantando mandioca
pescava com arco e fecha
e não usava a minhoca.

Tornou-se escravo
na sua terra
sedento espaço
perdendo a esfera,
e a liberdade que antes tinha
foi um sonho,
aspirado pelo cipó,
dentro de uma pescaria.

Era Carijós
e sendo, DEUS tenha dó
porque tentando ser amigo
morreu num golpe só.

Aos tiros de espingardas, de imigrantes e bandeirantes, a caça foi caçada e os poucos que sobraram foram escravizados pela mão colonizadora. Que para evoluir teve que sacrificar os verdadeiros homens da terra, os pioneiros, “catarinas” do litoral sul, os Índios Carijós, que caíram pela inocência na palavra falsa do homem branco.





Rodrigo Rafael Giovanella (Kico) – Indaial –SC.




“Os Carijós por não terem malícia, nem serem arredios, e, além de tudo, darem crença a lábia dos brancos, foram escravizados e, aos poucos, exterminados”.

( Pág. 25). JAMUNDÁ, Theobaldo Costa; Os carijós lá nas raízes. Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina – Florianópolis-SC, 1987.


O cientista social DONALD PIERSON, no livro Cruz das Almas. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1966, faz referência aos carijós nas páginas no 10, 11, 14 e 19.
Diz a página 10: “Carijó é o nome pelo qual os Guaranis foram conhecidos dos Europeus, tornando-se corrente esse último termo apenas no século XVII”.

( Pág. 23). JAMUNDÁ, Theobaldo Costa; Os carijós lá nas raízes. Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina – Florianópolis-SC, 1987.
Escravos de CARIJÓS

Antes de tudo
existia o nada?

Pensavam os europeus:
nada aqui existe,
a não ser o ouro,
a terra gorda,
solitária e triste.

Porém, o índio
já o habitava
plantando mandioca
pescava com arco e fecha
e não usava a minhoca.

Tornou-se escravo
na sua terra
sedento espaço
perdendo a esfera,
e a liberdade que antes tinha
foi um sonho,
aspirado pelo cipó,
dentro de uma pescaria.

Era Carijós
e sendo, DEUS tenha dó
porque tentando ser amigo
morreu num golpe só.

Aos tiros de espingardas, de imigrantes e bandeirantes, a caça foi caçada e os poucos que sobraram foram escravizados pela mão colonizadora. Que para evoluir teve que sacrificar os verdadeiros homens da terra, os pioneiros, “catarinas” do litoral sul, os Índios Carijós, que caíram pela inocência na palavra falsa do homem branco.
Rodrigo Rafael Giovanella (Kico) – Indaial –SC.


“Os Carijós por não terem malícia, nem serem arredios, e, além de tudo, darem crença a lábia dos brancos, foram escravizados e, aos poucos, exterminados”.

( Pág. 25). JAMUNDÁ, Theobaldo Costa; Os carijós lá nas raízes. Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina – Florianópolis-SC, 1987.


O cientista social DONALD PIERSON, no livro Cruz das Almas. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1966, faz referência aos carijós nas páginas no 10, 11, 14 e 19.
Diz a página 10: “Carijó é o nome pelo qual os Guaranis foram conhecidos dos Europeus, tornando-se corrente esse último termo apenas no século XVII”.

( Pág. 23). JAMUNDÁ, Theobaldo Costa; Os carijós lá nas raízes. Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina – Florianópolis-SC, 1987.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

(Nestor Jr.)






DEIXA-ME






Deixa-me chorar
Mesmo que te incomode
Com a minha ruína e perdição
Na desordem dos meus gritos
Deixa-me ser indócil
Com a censura dos meus gestos
Que a palidez da minha face
Revela em anos vividos
Deixa-me ignorar
Os rasgos da pele
Perto dos olhares perdidos
Desnudos de ilusões
Deixa-me as lágrimas
Dos delitos da feiúra
Que me impõe a modéstia
Como a única virtude
Deixa-me odiar
O tempo passado
Das noites esquecidas
Antes dos mornos dias
Deixa-me descansar
Dos duros golpes
Quando o sol tardio
Parou de brilhar
Deixa-me terminar
De ganhar a sorte
Da última lágrima
Antes da minha morte







Isabel Mir


junho/2007
(Nestro Jr.)

Ciúmes dos meus Sonhos



Acordei em prantos
Com ciúmes dos meus sonhos
Temerosa de que fossem ilusões
Vesti-me de medos e temores
Não saí de casa
Agucei meus sentidos
Senti calafrios
Espiei o sol pela janela
Senti-me viva e desperta
Impregnada de inspiração
Provoquei a razão
Para voltar ao sono profundo
Onde sonhos fascinantes
Serão somente meus


Isabel Mir
Abril/2007
(Nestor Jr.)




O ciúme e verruga


Ontem tudo era novo
O amor era adorável
Fiquei poeta de repente
Fiz versos
Cantei canções
Comprei flores
Amei loucamente
Explodi de paixão
E tive ciúmes
Hoje tenho uma verruga no nariz
Sinal desproporcional
Acusador de pensamentos
Nefasto volume
Posicionado futilmente
Diante de mim
Zombador e grosseiro
Leva-me a refletir que
Amanha ninguém vai ter ciúmes
Da verruga no nariz

Isabel Mir
27/03/07
(Nestor Jr.)



UMA ESTRELA



Passou-se um dia,
A mente foge ao infinito,
A procura de uma estrela,
Que não se encontra no céu,
Uma estrela na terra,
Em uma terra distante...
Distante das mãos,
Mas, perto do coração.
De um coração triste, que chora...
Que chora pela distância,
Mas foi apenas um dia,
E muito aconteceu.
Parti sem minha estrela.
Meu coração ficou...
Ficou a procura de um lugar,
No coração desta estrela,
Que ganhou forma terrena.
Em apenas um dia,
Apagou o fogo da vida
Fogo que aquece a estrela.
Fugiu o brilho do olhar,
Que na dúvida na incerteza...
Na incerteza de não saber,
Se a estrela também ama
Ama alguém que não merece,
Por ser um simples mortal,
Em um mundo de conflitos.
Alguém que sente
Alegria e tristeza,
Ódio e amor.
Alegria por uma dança,
Tristeza pela distância,
Ódio por ter partido,
E amor por esta estrela,
Uma estrela com sentimentos,
Estrela mulher.


Ernesto Ehmke



Não gosto do papaléguas
Ele não é brasileiro
Não tem imaginação
Nem fala português
Alias não fala nada
Apenas bipa
Ele corre feito louco
Nunca se acidenta
Nem cai nas armadilhas
Ele é americano
Corre no asfalto
É aerodinâmico
Com tecnologia avançada
Ele tem aquele sorriso
Idiota e debochado
Esboçado por todo americano
Quando perguntado
Onde fica o Brasil?
Gosto mesmo é do coiote
Ele é brasileiro
Inventivo, irresponsável
Não desiste nunca
Acredita que um dia
Vai comer o americano
(digo o papaléguas)
Ele sempre está pronto
Pra se ferrar no final
Faz cara de mau
Range os dentes
E ainda fala português
“Nunca neste (...1) se fez
Tanta (...2) para derrotar o papaléguas”
Porque o deserto
Onde se trava a luta
São os políticos da
Ensolarada Brasília.

(...1 = país)
(...2 = merda)

Isabel Mir
Agosto/2007

terça-feira, 21 de agosto de 2007




TERRA NOSSA, TERRA DE IRMÃOS

" No princípio Deus criou o céu e a Terra...
e um sopro de Deus pairava sobre as águas."
E Deus viu que tudo era bom...
Coaxam sapos, cantam pássaros, rosnam cães...
Murmuram as águas, explodem os vulcões,
Sementes germinam, se multiplicam,
Exultam os homens!!!
Eis o chão! Eis a vida! Eis a criação!
Hoje, ouço o grito!!
Grito da Mãe Terra, Mãe Água da Mãe Natureza.
E a resposta:
Matas destruídas, águas que inundam, se revoltam.
Terra agredida, Terra sofrida, Terra,Terra, Terra...!
Camada de ozônio,
Universo: eras perfeito...!
E um sopro de Deus pairava sobre as águas.
E o homem? Inconformado, insatisfeito...!
Este, criado à imagem e semelhança do Criador.
Do poder de reinar sobre os demais seres,
Na Terra, sua mão resolveu colocar!
E então, homens tombados, sofridos, autodestruídos,
Adormecidos, calados, amedrontados, desvairados,
Arrependidos...! Arrependidos...!
A Terra geme, a natureza sofre, reage,
E o espírito de Deus pairava sobre as águas.
Terra, Luz, Água, Ar, servem.
Tão somente servem.
E se embalam no balanço do sopro de Deus.
O homem, usa, abusa, explora,
Divide, separa, destrói, e a criação transforma!
Ouço os gritos:
Quero respirar! Quero comer e beber!
Quero plantar e colher!
Quero amar e viver! E viver!!!
E o Filho Encarnado veio: "para que todos tenham vida"
"Vida em abundância"!
Que faço? Que busco? Onde estão todos irmãos?
Onde estão todos? Seres da criação?
Vamos, acordem!
A reação é lenta, invisível aos olhos.
O ouvido é surdo, porque o grito é silencioso,
Lento, mas longo.
Porque a vida é mistério.
A Terra é Dom, presente.
Mãe da criação!
A criação é conjunto, se abraça, dá as mãos.
São o princípio, os pés, as mãos e o corpo de Deus- doação!
Presente, onipresente, mistério e tudo.
Destruir a Terra é rejeitar o Espírito, a luz e querer as trevas.
Vamos pensar a vida, o Dom
A Pátria nossa, pedaço de chão!
O pão para todos irmãos?
O chão para todos irmãos!



Janete Ap Tarniowic



SOLFEJOS



Ele acredita em anjos,
Tem alma de poeta em sonhos tais...
E fica a compor, solitário, às vezes,
O som do seu silêncio
Em notas musicais...




Mauro Celso de Aguiar

(Mario Holetz)









GRECO-PARNASIANO




O céu ainda é o mesmo e é o mesmo astro que ilumina
Inertes, seculares ruínas, sustentáculos e portais.
Como a Fênix sobranceira, que das cinzas renasceu,
Esta progênie sobreviveu aos golpes de zoilos mortais.

Absorto em diuturnos pensamentos, Homero pôe-se a compor:
Heróis, glórias, o amor em sua última Epopéia!
Evolando-se sobre faléias, fora um mágico etopeu
Nas linhas que escreveu na verdadeira Odisséia.

A coragem de Ulisses, os poemas de Homero
E os prazeres de Eros em idílicos sonetos;
Quanta envolvência em feéricas elegias
Um mundo de utopias, posto em versos de quartetos.

Esse universo de Elfos e Euterpes infindas
Das Cidades-Estado, acrópoles lindas,
E dos templos sagrados; de Etólia e de Eubéia...

Maravilhas puras de sacro misticismo,
Do mais verídico e único eudemonismo
Em linhas avulsas de uma longa etopéia.

Mas letais foram as marcas do tempo,
Como em Creta, Esparta, Atenas;
Restaram no solo apenas os fragmentos de um passado.

Finais lúgubres, árduos momentos,
Tal qual como se fora em Pompéia,
Deixando, sob a lava letéia,
Seus segredos tão lacrados...

Os lindos versos de Píndaro, a envolvente Afrodite...
Todo esse mundo ainda existe: cada mito e cada Deus.
Não serão miríades de anos, na epiódia da eversão,
Que nos afastarão
Daquela prole de Zeus!







Mauro Celso de Aguiar
(Mario Holetz)




A FÉ



Quando não a encontro por aí,
Penso temer que a perdi
E então a busco assim, a esmo;

Co’a euforia da saudade,
Procuro por toda a cidade,
Mas só a encontro em mim mesmo...





Mauro Celso de Aguiar
(Mario Holetz)



ENCONTRO II



Andei
Pelos meus pensamentos
Até me encontrar.
Eu estava lá;
Só eu,
Perdido, sem chave
Para entrar...
E dentro de mim
Eu estava lá,
Só eu,
Querendo sair
Prá me encontrar...





Mauro Celso de Aguiar
(Mario Holetz)





FLOR DESFOLHADA E A UTOPIA DA ESTRELA



(Para J.G. B. de O.)


O Príncipe-dos-Campos-de-Verde-Veludo, em dia de alegria e grande ânimo, chegou para Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, e prometeu com grande entusiasmo:


- Olha, dá-me umas horas! Vou buscar para ti a estrela mais bonita, a mais luminosa de todas, aquela colhida lá perto do Pólo Norte! É uma estrela que tudo viu e que tudo sabe sobre o que aconteceu lá, e eu vou buscá-la para ti!


Flor Desfolhada sabia que aquela estrela era muito especial, a mais especial de todas, e por um momento, um tempo que foi se emendando no outro, de repente nem se sentia mais Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, pois se vestiu de raios de Esperança e sentiu-se maravilhosa, como uma camélia colorida, quiçá uma rosa em manhã de Primavera - não estava o Príncipe mais fantástico de todos prometendo-lhe a estrela mais maravilhosa do mundo?



Aos poucos, porém, suas pétalas de rosa e de camélia foram caindo, quando ela viu que não era verdade, que o Príncipe-dos-Campos-de-Veludo-Verde, mais uma vez, prometera-lhe coisa falsa, como já fizera outras vezes. Na verdade, estrelas como aquela que ele prometera havia em grande número, um enorme baú cheio, quem sabe 5.000, quiçá 10.000 – quer dizer, eram estrelas parecidas, parecidíssimas – quem não o soubesse poderia até pensar que eram iguais à estrela do Príncipe, mas Flor Desfolhada sabia que não eram, que a estrela do Príncipe era única e insubstituível, e não quis nenhuma que fosse inferior, pois como a estrela do Príncipe não havia nem haveria nenhuma outra sobre a face da terra. Flor Desfolhada acabou sabendo que o Príncipe passava por dissabores na sua corte, e foi se conformando – decerto que esquecera. Era melhor pensar assim, pensar que eram esquecimentos as promessas falsas, e eram tantas! Ficou a pensar nas muitas outras promessas não cumpridas, na transparência das águas que um dia ele ia lhe mostrar e não o fez; e nas mangueiras de Belém, que ele disse que iria tirar de um alforje para que ela visse, e jogou o alforje fora; e nas audiências prometidas e depois calcadas sob o tacão de cristal da sua bota de Príncipe; e no raminho de urze que ele achou coisa inferior para um Príncipe botar no bolso do casaco para ela ver – e aí ela se lembrou que passeou pelo veludo verde dos campos dele e não teve pejo de colher desde as mais tenras flores até os mais espinhudos espinhos para fazer um arranjo para a sala de sua casa – mas ela era Flor Desfolhada, Aquela-que-não-era-nada, aquela que não significava nada, que não tinha direito a coisas como urzes, ou águas transparentes, ou alforjes contendo relatos – mas como ela queria aquela estrela única, aquela colhida perto do Pólo Norte, aquela que o Príncipe lhe prometera um dia, tão cheio de entusiasmo e felicidade!


Flor Desfolhada nada tinha a fazer a não ser seguir a sua vida sem pétalas, e teve um enorme assombro quando um dia, só de brincadeirinha, ela lembrou ao Príncipe da estrela única prometida, pois na verdade já não esperava por ela, pois, como as outras coisas, a urze, as águas transparentes, os alforjes de histórias, ele acabara esquecendo – e mesmo sendo ela Aquela-que-não-era-nada, que não servia para nada, ficou pasma quando o Príncipe desembainhou a sua espada flamejante e partiu para cima dela com um fardo de não-verdades, como se mentira ela tivesse dito, e ela tentou se defender, e reuniu provas como se tentasse se livrar de um inexorável tribunal como o de Nuremberg, mas ela é apenas Flor Desfolhada, a que não é nada, a que não vale nada, a que nada vale ... e decerto um Príncipe que reina em campos de Verde Veludo não irá se importar que uma Flor Desfolhada seja ceifada de uma vez por todas, para sempre, como se faz com as ervas daninhas: afinal, ela já nem tem pétalas mesmo, e ele é o Grande Príncipe dos tacões de cristal – como é que uma Flor Desfolhada, bagaço de um jardim, pôde um dia pensar de verdade que um Príncipe tão maravilhoso iria mesmo buscar uma estrela única, nascida lá perto do Pólo Norte, para ela se sentir um pouco camélia e um pouco rosa da Primavera, outra vez, por um pouquinho que fosse?


A violência da espada flamejante do Príncipe não permitiu sequer que ela se finasse devagarinho, que fosse decaindo, entortando, morrendo aos poucos, como compete a uma flor que já nada vale, que já não tem pétalas, que já para nada serve... A espada do Príncipe despedaçou sua corola desprovida de pétalas, seu caule que já começava sua degenerescência, picou em pedaços as raízes que, quem sabe, um dia poderiam, ainda, vir a brotar de novo... Não houve sequer a clemência que poderia ter havido num tribunal como o de Nuremberg, caso se analisassem bem as provas – Flor Desfolhada não teve sequer o benefício da dúvida.


Nunca mais haverá Primavera para Flor Desfolhada. A estrela mais bonita e luminosa de todas ficou perdida no espaço, talvez tenha sido engolida por um buraco negro. Pelos caminhos da magia, os tacões de cristal das botas do Príncipe-dos-Campos-de-Verde-Veludo soltam chispas como se fosse dia de trovoada.



Blumenau, 17 de Agosto de 2007.

Urda Alice Klueger
Escritora

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

(Mário Holetz)


PÉROLAS NO CRISTAL



Está um dia escuro, cinzento e frio, em Blumenau. Talvez seja uma fina angústia gerada por este dia plúmbeo que me fez lembrar com tanta nitidez de las Islas del Rosário, as Ilhas do Rosário, no Caribe colombiano, pequenas pérolas de luz e de cor mergulhadas na transparência de cristal daquela mar indizível.


Saíramos pela manhã da cidade de Cartagena das Índias, num barco veloz, tipo voadeira, que em menos de meia hora deixou para trás a imensa baía de Cartagena, ornamentada na sua entrada pelos antigos fortes, aqueles mesmos que a gente vê nos filmes de piratas. Tivemos uma primeira parada na Playa Blanca de Cartagena, outro cenário inesquecível.


Imagino que talvez possa haver no mundo outra praia tão linda quanto aquela, mas, mais bonita, acho impossível. É a famosa praia onde o mar tem dezessete cores: tentamos contá-las para confirmar, sem sucesso. As cores do mar vão desde o mais ardente verde, como o das folhas do milho novo, até o intenso roxo, passando por todas as gradações dos lilazes e outras cores intermediárias. A água, de uma transparência total, como só a água do Caribe é, tinha a leveza e a friagem certas de encontro aos nossos corpos; era como se chupássemos balas de hortelã quando entrávamos nela. E como sair daquela água maravilhosa? Ficamos dentro dela todo o tempo em que o barco ficou ali, nadando entre milhões e milhões de peixinhos que nenhum medo tinham de nós. Quem tinha medo de machucá-los era eu, e fazia movimentos lentos, suaves, pensando na segurança deles.


Já perto do meio dia, tornamos a embarcar. O destino eram as Islas do Rosário, que nós não sabíamos o que era.


Por uns quarenta minutos, o barco veloz singrou em direção ao mar alto, e então pontinhos verde-escuros começaram a aparecer no horizonte. Tivemos que chegar mais perto para crer no que víamos.



As Islas do Rosário fazem parte do Parque Nacional dos Corais da Colômbia. Área de preservação ambiental, quem não preservaria aquela maravilha? Vou tentar contar o que são.
Lá na noite dos tempos, pequenos corais foram se fixando no fundo do mar e formando grandes plataformas. Um dia, tais plataformas foram aflorando a superfície da água. Aflorou um pedacinho aqui, outro ali, e começaram a nascer as ilhas. São dezenas, talvez centenas delas, minúsculas ilhas que, na maioria das vezes, tem apenas o tamanho de uma casa de tamanho médio. Umas poucas são cobertas de luxuriante vegetação: muitas são cobertas por casas, uma casa por ilha, casas que ocupam exatamente toda a ilha. Os milionários da Colômbia descobriram aquele paraíso e lá fizeram suas casas de veraneio. Como as ilhas são de pontas de coral, não tem praias; como por lá a variação da maré dá, no máximo, uns cinco centímetros, não há porque não fazer casas ao rés da água, lindas casas coloridas que se espelham no Caribe colorido como que projetadas de um sonho efêmero. A luminosidade do céu, da água e das ilhas nos deixa como que dentro de uma irrealidade, e a gente navega por entre aquele cenário de sonho como se estivesse sonhando.


Nosso barco atracou numa das ilhas maiores, onde fica um famoso aquário do Instituto Oceanográfico de lá, aquário que tem até tubarões. Eu e minha amiga Lúcia não fomos ver o aquário: totalmente encantadas com a natureza ao redor, resolvemos curtir a ilha. Primeiro, demos uma volta ao redor dela: em dois minutos chegávamos, de novo ao lugar de onde tínhamos partido. Ficamos morcegando por ali, debaixo de árvore tão frondosa e copada que parecia abarcar a ilha toda, observando a transparência da água.


No Brasil, sempre que há um cantinho qualquer, a água do mar fica suja, toldada, cria limo. Estávamos em frente a um atracadouro que tinha tudo para ter formado limo e sujeira, e era impressionante ver como a água sob e ao redor dele continuava totalmente transparente, assim como se milhões e milhões de garrafas de água mineral tivessem sido derramadas ali naquele momento. A água de cristal puro aos nossos pés, poucos metros adiante ficava verde como cristal verde, e depois lilás como perfume de violetas que se vêm nos frascos chiques.


Meia hora depois, partimos. As pérolas que eram as Islas del Rosário ficaram lá, mergulhadas naquele mar de cristal líquido, mas tenho-as nos meus olhos como uma irrealidade vivida. Nunca poderei esquecê-las!


Blumenau, 04 de Maio de 1997.


Urda Alice KLueger

terça-feira, 14 de agosto de 2007

(Mário Holetz)



O que eu gostaria de ter dito aos alunos da Escola Conselheiro Mafra, na Velha Grande


Oi, crianças! Estive aí na sua escola, mas vocês não estavam. Fui até aí pensando que a gente conversaria, que haveria uma festa de crianças – mas havia uma festa de gente grande. Foi uma pena não tê-los conhecido, e então é por isto que agora lhes escrevo, dizendo o que gostaria de ter-lhes dito se vocês estivessem na escola no sábado. Vamos lá:

Eu queria dizer para vocês que um dia, quando eu era criança, morava num lugar muito parecido com o Vale onde moram, só que era um Vale no Bairro Garcia, também aqui em Blumenau. Sei muito bem como é morar assim entre morros, com o ribeirão serpeando lá no fundo do Vale, perto da estrada – sei a umidade que existe, a friagem que dá nos pés da gente quando o sol se põe, o tanto de tempo que leva para a roupa secar nos dias de inverno... Foi bem num lugar assim que vivi a maior parte da minha infância.

Existem duas diferenças entre os dias em que fui criança e os dias em que vocês estão sendo crianças. Uma, é que naquele tempo havia menos gente, e então havia mais espaço, e as pessoas podiam ter quintais onde plantavam aipim, hortaliças, criavam galinhas – e como as mães daquele tempo não trabalhavam fora, produziam, elas mesmas, muito do alimento nosso de cada dia, nos terrenos que então eram bem amplos.

A outra diferença é que, no Vale onde me criei, já nascíamos com emprego garantido: aos 14 anos, cada criança tinha seu lugar certo nas fábricas, e dificilmente alguém deixava de cumprir o seu destino de trabalhar em alguma das que ficavam próximas, até se aposentar. Sei que hoje a vida está mais complicada, que muitos de vocês terão dificuldades de achar emprego quando chegar a hora – e então é sobre tais coisas que queria falar com vocês.

Apesar de eu ter nascido num lugar onde cada criança crescia para trabalhar numa fábrica, nem eu nem minhas irmãs nunca fomos para nenhuma fábrica – e aqui quero deixar bem claro que nada há de desonroso trabalhar-se numa fábrica – mas também quero lhes contar que há outras formas de viver que podem ser melhores ou piores do que tal trabalho. Eu e minhas irmãs tivemos a sorte de termos conseguido viver vidas melhores, mais interessantes e gratificantes do que os nossos amiguinhos de escola que foram para a fábrica, e então eu pergunto a vocês: o que nos diferenciou deles para que nossas vidas fossem diferentes? Para mim a resposta é muito clara: a diferença está na escola, nos livros, na biblioteca da escola ou outras que a gente possa acessar, oportunidades que nem todas as crianças têm por igual.

Na minha escola havia uma boa e sortida biblioteca, que eu li avidamente antes dos 12 anos, para depois me associar à Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Mueller. Era fácil, onde eu morava, ir até a Biblioteca Pública: era perto, podia-se ir de bicicleta, e o trânsito daquele tempo era muitíssimo menos perigoso. Aqui na Velha Grande está-se muito longe da Biblioteca Pública, e vocês sabem o quanto o trânsito de hoje é perigoso para se ficar andando de bicicleta por aí. Assim, não vejo como vocês poderão freqüentar uma biblioteca, neste bairro, se não houver uma na escola, e quando vocês se acostumarem a mergulhar no encanto dos grandes mistérios dos livros, encanto que dificilmente é igualado por um filme ou outra forma de expressão, vocês verão que a vida de vocês passará por mudanças que ainda não podem aquilatar, mudanças que poderão mudar todo o seu destino.

Faz cerca de uma década que a escola de vocês inaugurou uma biblioteca que, para minha surpresa e prazer, levou o meu nome. Estive na sua escola naquela ocasião, e falei para as crianças daquele tempo o que estou lhes falando agora. Era muito grande o meu prazer em saber a coisa maravilhosa que estava acontecendo, que decerto iria mudar a vida de tantas pessoas da sua comunidade. Por diversos motivos, no entanto, a vida daquela biblioteca foi efêmera – calculo que por uns oito anos ela se manteve fechada, inacessível para as crianças da Velha Grande, e tal me corta o coração – oito anos significa que muitas e muitas crianças entraram na primeira série e saíram na oitava sem terem tido o direito de freqüentar uma biblioteca, sem terem o direito de ampliarem seus conhecimentos, sem terem o direito, quem sabe, de mudarem sua vida para melhor. Eu considero uma coisa criminosa fazer tal coisa com pessoas, principalmente com crianças – os culpados por terem cortado as possibilidades de novos caminhos para tantas crianças, em algum momento das suas vidas, decerto haverão de prestar contas por tamanho crime.

O mais importante, no entanto, é que faz poucos dias que a biblioteca da sua escola foi reaberta, e o que eu queria lhes dizer é que não existe essa coisa de se ter ou não se ter hábito de leitura, como alguém me disse que as crianças da Velha Grande não tinham: quando a gente vê uma biblioteca, a gente tem que entrar, descobrir tudo o que há lá dentro, PRINCIPALMENTE o que está lá escondidinho nos livros, pois aquelas são as coisas mais preciosas, as que fazem a diferença. E depois que a gente descobre a importância do conteúdo dos livros, a gente não tem mais como passar sem eles, como ficar sem aprender mais e dar novos rumos à nossa vida. Experimentem a grande emoção que é a leitura, a grande caminhada que se pode fazer a partir de uma biblioteca – e lutem o resto das suas vidas para nunca mais ficar sem ter uma por perto. Esta biblioteca da escola pode ser o caminho para a grande biblioteca de uma universidade, para a biblioteca de uma nova vida – nunca mais deixem que a sua escola lhes corte os caminhos para um futuro que pode ser muito diferente do que agora conseguem visualizar!


Muito carinho para todos!


Blumenau, 19 de junho de 2007.


Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora
(Mário Holetz)



A Procura De Um Amor


Silvio Rafael Mafra

Estou no meio da escuridão procurando o inexistente,
Procurando algo que preencha este vazio.
Eu vi uma luz que desce do céu.
Talvez esteja lá o que procuro
Isso me da esperança, uma esperança.
Que eu me agarrei pra me sentir seguro
Pois na verdade eu sei que não é ali que devo procurar.
Estou com o coração partido
As feridas não querem se fechar
Acho que o que procuro é a cura da magoa e do ódio.
(Mario Holetz)




Meu amor por ti


Silvio Rafael Mafra

Mesmo que não escutem o que eu falo
Saibas que eu te amo.
Mesmo que não ouça meu coração bater com alegria e esperança
Saibas que eu te amo
Mesmo que tu não me amasses
Eu te amaria
Mesmo que eu não fale
Saibas que eu te amo
Mesmo magoado
Não consigo deixar de te amar
Nem mesmo a morte pode acabar com meu amor por ti
Por isso peço perdão
Por um dia não crer no amor
No que hoje é meu único motivo de esperança
Meu amor por ti
Mesmo que de minha boca saiam palavras de ódio
Saibas que te amo.
Hoje tenho coragem de dizer
Eu te amo.

Dedicada a minha mãe - Lidia Hermes Mafra.
(Mário Holetz)

Mudei

Resolvi ir embora
Não importa como
Apenas vou partir

Resolvi gritar
Coisas do adeus
Para antigas mágoas

Deixo tudo para trás
Não tenho nada mesmo
Apenas a minha raiva

Levo comigo o último grito
Do breve adeus da partida
Mas deixo as eternas mágoas

Mudei de casa
Mudei de amores
Mudei de mim

Isabel mir
Agosto/2007