segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Russland I – Setembro


(Para Elizabete Tamanini, Cesar Zillig e Juarez Aumond)


Um dia, lá na aurora dos tempos, este planeta Terra se formou todo quente e explodindo em vulcões e derrames de magma; um dia, também, ele esfriou e veio uma primeira glaciação, e depois, uma série delas, e aí nesse entremeio foi surgindo a Vida nas suas mais diversas formas, e ontem à tarde eu caminhei por um pedacinho privilegiado deste planeta, e era tão visível, ali, tantas destas coisas que vêm desde lá dos tempos mais remotos!
Era uma estradinha no lugar que quando eu era criança a gente chamava de Russland – hoje, aquele lugar tão lindo é conhecido como Nova Rússia. Fica em Blumenau/Brasil, e é uma reserva ecológica, que abriga nascentes de bicas, arroios, riachos – e todas essas águas juntas acabam formando um rio, à beira do qual costumo acampar.
E era no finalzinho da tarde, assim já depois que o sol se pusera por detrás dos morros altos, e uma fina camada de névoa azulada pairava sobre tudo e dentre tudo, principalmente dentre as árvores daquele resquício de Floresta Atlântica ali preservada, embora aqui e ali, dentro da floresta nativa, surja um Tannenbaum, ou um eucalipto, ou florescidos antúrios plantados sob a mata, à beira da estradinha – e embora exista por ali algumas casas de campo (eu diria: casas-de-mato), escondidas nos lugares mais inesperados, e umas três ou quatro propriedades rurais onde, em pastos de grama rasteira, vacas holandesas nos olham bondosamente com seus grandes olhos líquidos e mansos, e também alguns campings, e algumas outras curiosidades, como uma roça de cana, alguns jardins e cachorros, pode-se dizer que a preservação ambiental, ali, é boa, e pode-se embarcar nela e viajar para a história do passado deste planeta.
O que sempre me chama a atenção primeiro é a estradinha, quase pendurada na encosta dos morros altos e quase caindo sobre o rio, lá embaixo – como venho muito a este lugar, tenho podido observá-lo nas mais diversas situações e estações do ano, e sei que o único lugar onde ela poderia existir é onde está, que na outra margem do rio é tudo perau tão escarpado, rochas abruptas disfarçadas sob a camada da floresta, que não haveria como se ter criado tal estradinha do lado de lá – assim como vejo hoje, depois de prestar muita atenção, muito gente, nos últimos milênios, também viu onde era a passagem possível, e aquela estradinha, um dia, começou a ser aberta e se tornou um caminho feito a pé de índio. Generalizo a palavra índio por não saber o nome das tantas possíveis nações que um dia por aqui passaram – afinal, desde a última glaciação, quando o mar recuou destes lugares onde estou, quanta gente deve ter passado por aqui?
Faz século e meio, lá por volta de 1860, que um jovem imigrante chamado Julius Bernhard Klüger, que foi o meu bisavô, também passou por aqui uma primeira vez, e foi cultivar a terra da sua primeira colônia lá mais para os confins da Russland, e o caminho já estava aberto. Mais adiante deste camping onde costumo ficar, bem mais adiante, há um pequeno cemitério com muitos parentes meus enterrados, comprovação inequívoca dos tantos meus antepassados que um dia aqui vieram trilhar a estradinha aberta a pé de índio – e que pouca modificação sofreu depois que os engenheiros e os imigrantes deram uma melhorada nela, com tratores e enxadas.
Então, ao pôr do sol de ontem, também eu estava a trilhar a estradinha, o rio espumante e encachoeirado de um lado, lá embaixo, e as rochas partidas pelo resfriamento do planeta, em outros tempos, a formar a base dos morros, do outro – e era-me espantoso observar a quantidade de vida que se agarrava àquelas rochas, musgos, líquenes, samambaias e outras plantas, cada uma tentando fazer o seu trabalho de desmanche daquelas rochas que talvez estejam ali desde um antiquíssimo primeiro derrame de lava aqui nesta região. Talvez aquelas rochas já tenham passado por todo o calor e por tantas glaciações, e sejam testemunhas de todo o tanto de vida que já aconteceu por aqui, desde a das plantas, quanto a dos animais de diversos tipos, sabe-se lá quantos já extintos, e das diversas nações de gente que por aqui desfilaram, inclusive a dos imigrantes, e sabe-se lá em quantas delas havia pessoas do meu passado – e ali estão, portando seus musgos e seus líquenes, e esperando que a próxima glaciação chegue, embora, por enquanto, o mundo ainda esteja a esquentar, desde o último grande Frio... como queria eu poder perguntar tantas coisas àquelas rochas! O quanto poderiam elas me contar, que me escapa a este olhar limitado com que as olho!

Blumenau, 14 de setembro de 2007.


Urda Alice Klueger
Historiadora e Escritora.
A CIDADE DO LIVRO

Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor - Http://br.geocities.com/prosapoesiaecia )

Finalmente fui visitar a Feira do Livro de Porto Alegre. Participei com o lançamento de meu livro "Saudades de Quintana" e "Borboletas nos Jacatirões", ambos de crônicas. No mesmo dia, minha amiga Urda A. Klueger teve sua noite de autógrafos.
Demorei muito a ir à feira, pois gostaria de tê-la visitado quando Quintana ainda era vivo, mas apesar da ausência do poeta menino, valeu a pena. Aliás, eu nem diria ausência, pois a gente pode sentir a presença de Quintana por toda a feira. É como se ele estivesse caminhando por lá, cumprimentando os visitantes, caminhando entre eles.
Fiquei impressionado com o tamanho da feira. Ela é enorme, ocupa a Praça da Alfândega, as suas imediações, o cais do Porto, parece uma Cidade do Livro. Conjeturando aqui com meus botões, lembrei-me da Bienal do Livro do Rio e não tive como não comparar.Se juntar tudo o que há da Feira do Livro de Porto Alegre – a área Geral, a área infanto-juvenil, a área Internacional, ela é maior do que a Bienal.
Não vou aborrecer o leitor com números, com dados técnicos – só vou dizer que a feira ocupa míseros 26 mil metros quadrados - mas há lá um sem número de estandes, há uma variedade infinita de oferta de livros novos e há sebos, também, onde pode-se encontrar, de repente, bons livros por um precinho camarada.
E não se paga entrada, pois a feira fica no meio da rua, no meio da praça, e o público prestigia, é um vaivém constante de pessoas, eu diria que há até acotovelamento, pois é um fluxo constante e intenso de visitantes, não só nos finais de semana ou feriado, mas nos dias de semana também. Não é à toa que a Feira do Livro de Porto Alegre é a precursora das feiras do livro, a mais tradicional do Brasil.
Os moradores de Porto Alegre já absorveram como um grande festa tradicional e popular e ela faz parte do calendário da cidade.
Além dos livros, dos escritores que passam por lá, uma atração indiscutível, quase dentro da feira (na verdade, acho que é dentro da feira, pois ela abriga atividades da feira) é a Casa de Cultura Mário Quintana, localizada no prédio do antigo Hotel Majestic, construção belíssima e imponente, onde o poeta morou grande parte do tempo que viveu em Porto Alegre. Lá está até o quarto de Quintana, preservado, como era quando ele se foi. Muitas fotos, muita informação, muitos livros, muito sobre o poeta passarinho. Estar lá é uma emoção muito grande. Pode até parecer exagero, mas dá pra sentir uma energia boa, tomando conta da gente.
No âmbito da feira está, também, o Santander Cultural, o Centro Cultural Érico Veríssimo e o Memorial do Rio Grande do Sul, onde ocorrem atividades paralelas ligadas ao evento. Perto, está o Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Há muito o que se ver, muita cultura para se absorver. O lugar da feira foi muito bem escolhido, unindo a cultura e o conhecimento dos livros à cultura e tradição da cidade e do estado.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Nossas mãos estão sujas de sangue
Por Ricardo Machado

Primeiro, ainda no século XVI, trouxemos a espada e a cruz. Com a guerra tiramos suas vidas e com Cristo roubamos suas almas. Em seguida, roubamos sua terra, estupramos suas mães e filhas e escravizamos seus irmãos. Ainda os presenteamos com a sífilis, a varíola e a gripe. Com este violento contato, suas mortes sempre estiveram na casa dos milhares.
Séculos mais tarde, precisamente na metade XIX, trouxemos a civilização, a propriedade privada e os bugreiros para o Vale do Rio Itajaí-Açu. Estes caçadores de bugres usaram do extermínio em massa para legitimar a existência e o domínio de nossa civilização. Diante disso, restaram alguns poucos que por fraqueza, doença ou desesperança não se lançaram contra nossas armas. E destes poucos sobreviventes, ficamos orgulhosos de termos conseguido “pacificar”.
Desde então, o darwinismo social e o liberalismo econômico garantiram sua morte cotidiana. Morte feita a prestação para não nos deixar chocados. Morte sutil, mas não menos cruel, que é feita diariamente através da fome, do empobrecimento e da invisibilidade cultural.
Hoje lhes negamos uns míseros pedaços de terra em Gaspar. Terra que nada representa diante de tudo que já tomamos e destruímos. Além disso, nossa arrogância etnocêntrica e frágil compreensão do processo histórico ainda nos permite acusá-los de vagabundos e indolentes.
Há aqueles que acham que no futuro nossa civilização será lembrada pelas palavras “progresso” e “desenvolvimento”. Para estes, eu afirmo: Nós seremos lembrados pelas nossas mãos sujas de sangue.


* O autor é Historiador
Sete Quedas: 25 anos de luto

Um amigo veio me perguntar: “Você sabia que tá fazendo 25 anos que mataram as Sete Quedas do Iguaçu?” Eu, entre assustado e intrigado, disse que não. Não tinha lido nada a respeito, nem visto na televisão. Definitivamente, não se ama o que não se conhece. Nem se sente saudade. As Sete Quedas do Iguaçu eram um patrimônio natural que foi “afogado” pela Usina de Itaipu. Uma história esquecida, ou vista apenas pelo lado oficial: o progresso determinando a destruição da natureza. É provável que hoje não se investisse tão pesado em algo tão agressivo, o que consola um pouco a perda. Mas o que está feito está feito.

Nossos olhos jamais poderão ver as míticas Sete Quedas do Iguaçu de novo. Nesses tempos de desordem climática, olhar os crimes ambientais cometidos em nome do conforto humano pode ajudar a uma tomada de consciência sobre nossa intervenção na natureza. Itaipu, a pedra que canta, é uma monstruosidade de concreto cercando o rio Paraná, ou o Paranazão, como é conhecido. A usina também virou atração turística. Mas a que preço? Milhares de hectares submersos, diversos ecossistemas alterados, populações desalojadas de suas terras produtivas, e este silêncio atual sobre a morte das Sete Quedas. O que está feito está feito.

Lendo uma reportagem sobre o assunto no site www.sopabrasiguaia.com, Guilherme Dreyer Wojciechowski descreve da seguinte forma a submersão dos saltos: (...) Em 26 de outubro de 1982, há exatos 25 anos, as águas do lago chegavam aos saltos. No dia seguinte, às dez horas da manhã, o último centímetro de rocha era coberto pelo charco barrento, vermelho. (...)

A intervenção gigantesca do homem na natureza fez com que o rio ficasse com profundidades de até cem metros acima do nível natural. A energia elétrica que consumimos diariamente vem desta morte. Talvez por isso, tão submetida ao silêncio. Hoje, as Sete Quedas estão somente na memória de alguns privilegiados. É possível ver vídeos antigos, fotos já quase amareladas e povoar a imaginação com a força descomunal daquelas águas. Agora, um profundo e lento rio. Rio escravo, submetido às ditaduras humanas.

Na época, Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema chamado “Adeus a Sete Quedas”. Longo como a tristeza que o invadia. Drummond finaliza o poema: “Sete quedas por nós passaram, e não soubemos, ah, não soubemos amá-las, e todas sete foram mortas, e todas sete somem no ar, sete fantasmas, sete crimes dos vivos golpeando a vida que nunca mais renascerá”.

Mesmo as palavras certeiras do poeta caíram no esquecimento. São 25 anos de submersão. 25 anos em que os estrondos das Sete Quedas morreram afogados pela visão equivocada dos homens. O que está feito está feito. Cabe às novas gerações olhar para esta morte e evitar que outros crimes ambientais de tal monta venham a acontecer.


Rubens da Cunha
A IMPRUDÊNCIA QUE MATA
(Para Teles, o companheiro de luta,
com carinho e saudades!)

Estou aqui sentada na frente do meu computador pensando em como transmitir em palavras minha indignação e minha dor.
Acabo de voltar do enterro de um amigo muito querido. Um jornalista maravilhoso, o melhor que conheci, ético e de uma responsabilidade social muito grande.
Talvez alguém, ao ler estas linhas, se pergunte por que estou tão indignada. Calma, eu vou explicar.
No ano passado um colega do curso de Ciências Sociais onde estudo, voltava com os filhos pequenos de uma festa. Um motorista embriagado matou os três.
Em agosto deste ano morreu um garoto que estudou comigo no ginásio. Sabe, ele tinha uma moto, e alguém não estava dirigindo com muita prudência, mas foi ele quem morreu. Ele tinha 27 anos.
Na quarta-feira, dia 17 de outubro, estava indo para FURB*, como faço todos os dias, pois estudo lá, e como sempre esperava na faixa de segurança para atravessar a rua, mas ninguém parava. Já estou acostumada a isso, todo dia é a mesma coisa, fico algum tempo parada até que alguém resolva cumprir a lei e parar na faixa para o pedreste. O carro da pista da esquerda parou, o da direita estava quase em cima da faixa quando conseguiu parar, o que vinha atrás dele quase bateu, freou bruscamente, e só para variar vinha uma moto pelo meio dos dois carros, que parou em cima da faixa. Levei o maior susto, sai pensando que deveria escrever sobre o caos terrestre.
Mas olhem a minha surpresa: quando entrei na sala de aula me contaram que um dos colegas tinha sido atropelado na Rua XV de Novembro**, na faixa de segurança. O rapaz estava indo trabalhar, e hoje está no hospital, felizmente ele saiu da UTI no sábado, depois de 10 dias, mas quase perdeu a vida, porque alguém não podia chegar cinco minutos mais tarde.
Hoje de manhã meu celular tocou, e recebi a notícia da morte de um grande companheiro, um cara com 33 anos, cheio de sonhos, de ideais.
Sabe como ele morreu?
Ele voltava de São José do Cerrito*** onde tinha ido comemorar o aniversário do pai, quando alguém ultrapassando em local proibido, sem visibilidade nenhuma, deu de frente com ele. O Teles morreu, os três irmãos que estavam no carro foram para o hospital; a irmã com as duas pernas e a bacia quebradas.
Imaginem vocês a dor de um casal de velhinhos, os pais dele são bem idosos, velando um filho de 33 anos e tendo mais três no hospital? Dá para imaginar?
Não, não dá para imaginar, só quem passa por essa dor sabe, só quem está junto consegue sentir nos olhos o desespero.
É revoltante saber que agora ele estaria aqui, se as pessoas tivessem um pouquinho mais de responsabilidade.
A minha avó sempre conta a estória de um homem que por ter pressa não chegou ao lugar que queria na hora que esperava;
“Um homem estava indo para uma determinada cidade cavalgando. Como ele não conhecia muito bem a região parou para pedir informações.
Perguntou para um senhor se aquela tal cidade ficava muito longe dali.
O senhor respondeu:
- Ainda tá longe, mas se você for devagar chega hoje, agora se for muito rápido só vai chegar amanhã.
Ele não entendeu nada.
Como indo devagar ia chegar hoje e rápido só amanhã?

* FURB – Universidade Regional de Blumenau – Blumenau – SC / Brasil
** Rua do Centro da cidade de Blumenau – SC / Brasil
*** Pequena cidade do sul do Brasil

Meteu laço no cavalo e fez o bichinho correr até não poder mais. O cavalo cansou e como era longe a cidade, ele teve que passar a noite ali mesmo, na beira da estrada.”
Como aconteceu na estória da minha avó acontece na realidade, as pessoas querem chegar mais rápido e acabam muitas vezes não chegando, sem contar que colocam todo mundo que está nas estradas em perigo.
A imprudência mata. E vai continuar matando, enquanto não pararmos para pensar numa forma diferente de dirigir.
Não dá para aceitar que alguém tão jovem tenha morrido pela irresponsabilidade de outra pessoa.
Até quando? - eu fico me perguntando. - Até quando? Quantos mais terão que morrer até que mude a nossa mentalidade?
Eu olho pro lado e não vejo ninguém gritando, se indignando com esta violência no trânsito, com este caos terrestre que estamos vivendo que dia após dia tem ceifado vidas.
O caos terrestre mata muito mais gente do que o caos aéreo já matou, e ninguém, ninguém faz nada.
Vou continuar aqui perguntando:
- Até quando? Heim? Até quando?


Adenilson Teles vive!!!
Hasta la vitoria siempre!!!


Blumenau, 29 de outubro de 2007.

Sandra Teresa Tolfo
Estudante de Ciências Sociais
Os anormais de Santa Catarina


E tem gente, lá em outros lugares, e aqui também, que acha que Santa Catarina (e o Vale do Itajaí) são mesmo o Umbigo do Mundo, lugar freqüentado só por alemãezinhos de alto naipe, gente perfeita, fazedora de Oktoberfest, e que vive dançando em trajes típicos enquanto se mata de trabalhar para fazer deste recanto do Brasil o próprio Paraíso Terrestre: Paraíso Terrestre aqui, ó! Inferno de anormais, digo eu. Está certo que tem gente que se mata de trabalhar mesmo, e que gosta de festejar mesmo, mas isto não exclui o bando de anormais que andam pelo poder aqui em Santa Catarina, a começar pelo governador – e podem olhar tim-tim por tim-tim se em alguma outra vez eu usei do nome dele para falar alguma coisa, mas agora não está dando para segurar: Luiz Henrique da Silveira, governador de Santa Catarina, faz algum tempo andou defendendo umas idéias, num jornal, que até hoje não consegui engolir: eugenia, sem mais nem menos. Sabem o que é eugenia? Nada menos que as idéias de Hitler: só deixar viver quem é bonito, loiro, sábio – os outros, fogueira neles, ou câmara de gás, decerto desejo acalentado pelo venerável senhor desde os tempos de criança, quando não era nem bonito, nem loiro e nem sábio, e deve ter sofrido muito nas mãos de uns nazistazinhos que freqüentavam a mesma escola que ele – como a idade não o deixou nem mais bonito, nem mais loiro, e muito menos mais sábio, se ele constrói a tal câmara de gás, está sujeito a ser dos primeiros a ser fritado. Parece que estou defendendo a idéia de que loirinhos bonitos são perfeitos e escaparão da câmara de gás – não é nada disto.

“Mauricinho anormal” quer meter exército contra povo Xokleng

Se olharmos o Inferno de Anormais que anda por aí no poder, vamos dar de cara, bem rapidinho, com um alemãozinho também metido a nazista, oriundo daqui desta cidade de Blumenau, que propõe publicamente baixaria ainda pior: mandar o exército fazer uma carnificina nos índios Xokleng, moradores de José Boiteux, explorados e vilependiados pelos alemãezinhos e outros, que lhes roubaram as terras, a cultura, quase que a alma, e agora desejam lhes roubar, quiçá, a vida. O nome desse anormal? Jean Kuhlmann, do séqüito dos anormais que andam ao redor do governador anormal, infelizmente, meu conterrâneo. E o povo, por aí, achando que isto aqui é o Paraíso!

Abaixo o racismo e a xenofobia em Gaspar

E o pior não são sequer as baixarias acima: o pior é o que está acontecendo em Gaspar! O povo Guarani, que recebeu indenização por terras perdidas na sua reserva do Morro dos Cavalos, resolveu investir em terras de Gaspar, com a legal interveniência da FUNAI e tudo o mais. Sabem o que está rolando lá em Gaspar? A princípio, os anormais de lá pularam para fora das suas tocas, e basta uma coletânea de algumas declarações que se faz por lá para você se inteirar o que é preconceito. A princípio, ao saber do desejo dos Guarani, o Prefeito Adilson Schmitt desapropriou a terra que ia ser comprada, dizendo-a de utilidade pública, para que os Guarani não possam tê-la. E vamos ver algumas declarações: “... Outra polêmica em Gaspar. Eu acredito que essa vai ser avassaladora. Vamos ter novos moradores em Gaspar. Índios. Será que nós merecemos, povo gasparense?...” (Ivanilde Rampelotti, presidente do Sindicato Rural local). De Gilberto Schmitt, jornalista, sob o título de “Chumbo”: “Sou contra a vinda deles(...) Se eles querem uma identidade própria, não é nada legal alojá-los no meio da civilização.(...) A FUNAI quer empurrar uma tribo indígena goela abaixo para Gaspar(...) Não quero noticiar aqui o nascimento de nenhum índio de olhos azuis.” E isto é só uma pequena amostra. Queria saber que grande “civilização” é esta que existe em Gaspar, queria saber desde quando racismo deixou de ser crime inafiançável, para esses anormais andarem assim à solta por lá, queria saber o pedigree que atesta a arianidade dessa gente alinhada com o governador eugenista! E queria perguntar ao douto Gilberto Schmitt sobre como irão nascer índios de olho azul, se os ditos “arianos” de Gaspar não forem lá furunfar com as índias. Elas devem ser a sua grande tara sexual, não é, seu descendente de ladrão de terras de índios, em ponto de bala para ir para a cadeia por crime inafiançável? A última notícia é de que os Guarani e a FUNAI desistiram das terras de Gaspar. Eta Estadinho à toa! E como tem anormal se achando o máximo por aqui!

Blumenau, 29 de Outubro de 2007.


Urda Alice Klueger
Historiadora e escritora

Um passeio pelo inferno

Por elaine tavares - jornalista


Chove a cântaros em Florianópolis. São seis e 15 da tarde e saio do trabalho como um bagaço. Foi um longo dia. A sombrinha comprada no camelô vaza água por cima e molha toda a minha cabeça. Aperto o passo para chegar logo à parada do ônibus. Mas, um motorista, dentro de um ônibus da Insular, passa a toda velocidade sobre uma poça de água e encharca a minha saia. Maldito! Não têm consciência de classe. Preparo-me para o calvário que me espera. Em Florianópolis ninguém fica menos de meia hora numa parada de ônibus.

Passam 35 minutos e eu ali, gelada e com ódio. Xingo os empresários dos transportes, os vereadores, o prefeito e toda a sua geração. O Volta ao Morro enfim passa e lá vou eu até o final da Carvoeira para pegar mais um ônibus - na famosa “integração” inventada por Ângela Amin - rumo ao Rio Tavares. A chuva não dá trégua. Já são sete e dez da noite e eu tenho de andar mais um pouco na chuva para chegar à parada. Começo a chorar, num ódio surdo deste transporte desintegrado, incompetente e ineficaz. Bate uma vontade de quebrar tudo.

Na parada do Rio Tavares se repete o martírio. São 50 minutos de espera sob a chuva. É inacreditável que se fique tanto tempo esperando um ônibus. Lá vem ele, enfim. Está lotado até a boca. Então, são duas opções: ou a gente se sujeita a essa indignidade do aperto, do empurra-empurra, do esmagamento, ou fica mais 50 minutos esperando o próximo. É coisa para enlouquecer qualquer um. E só o que se quer é chegar em casa. Grito de ódio e as pessoas na parada me olham como se eu fosse louca. E, enquanto grito, agoniada, elas vão entrando feito carneiros, no latão lotado. Não entro. Praguejo como um marinheiro. Já são oito horas da noite. E, pensar que da universidade onde trabalho até minha casa são apenas 20 minutos de carro. Toca a esperar.

A chuva segue, zombando. Os carros passam céleres e vazios. Às oito horas e trinta e cinco minutos aponta um outro Rio Tavares. Aleluia. Não está tão cheio e ainda restam bancos na parte da frente. Hesito em sentar ali porque pela lei de Murphy certamente se eu sentar logo vai entrar um idoso. E, nessas horas, todo mundo vira o rosto para a janela fingindo não ver. Eu não resisto. Minha herança cristã e o respeito pelos mais velhos afloram. Sempre cedo o banco. Por isso não sento na frente. Não gosto da idéia de levantar depois de ter posto o corpo para descansar. Mas, com aquela chuva, penso que os velhinhos não deverão sair de casa àquela hora. Sento.

Distraída, fico a olhar os bancos. Só então percebo mais um absurdo do transporte coletivo. Os bancos da frente que são reservados aos idosos e pessoas com necessidades especiais ficam sobre altos degraus. Não é estranho? Os mais velhos terem de subir ali, arriscando cair, uma vez que, por conta do horário que têm de cumprir, os motoristas parecem sempre carregar bois? Começo a resmungar e falo sobre isso com o cobrador que me olha curioso. Ele encolhe os braços, indiferente. Mais um sem consciência de classe. Mais ódio se acumula no meu ser.

São nove e quinze da noite quando chegamos ao terminal do Rio Tavares e só haverá ônibus para o Castanheira às nove e meia. Isso significa que só chegarei em casa lá pelas dez da noite. Continuo chorando enquanto as pessoas-cordeiros olham indiferentes. Mas, meu choro não é faniquito de pequeno-burguesa. Ao contrário. É ódio. “Ódio são”, como diria Cruz e Souza. Ódio da indiferença das gentes que se acomodam e não lutam. Enquanto outros, os que lutam, são chamados de baderneiros ou sofrem mutilações como aconteceu com o vereador Márcio de Souza. Ódio dos empresários e governantes que não estão nem aí para os seres que fazem a cidade. Viesse um gênio a ofertar-me desejos eu pediria que essa gente fosse obrigada a andar de ônibus por um ano inteiro. Queria ver se não mudava.

São quase dez horas quando chego em casa. Insanidade. Quatro horas no inferno. A chuva amainou e os gatos esperam no alpendre com seus olhos mansos. Na cozinha há uma luz acesa onde meus homens esperam. Dois sobrinhos-filhos e o meu amor. Estão secos e alimentados. Acolhem minhas dores e servem café quente. Só aí a vida parece fazer sentido. Lá fora, ruge a caldeira do diabo. Um diabo que tem nome.
Armagedon humano?

Leonardo Boff
Teólogo
Os atuais cenários sombrios sobre o futuro do sistema-vida e especificamente da espécie humana permitem que biólogos, bioantropólogos e astrofísicos aventem o possível desaparecimento da espécie homo sapiens/demens ainda neste século. Aduzem argumentos que merecem ponderação. O mais robusto parece ser aquele da superpopulação articulada com a dificuldade de adaptação às mudanças climáticas. Na escala biológica verifica-se um crescimento exponencial. A humanidade precisou um milhão de anos para alcançar em 1850 um bilhão de pessoas. Os espaços temporais entre os índices de um crescimento a outro diminuem cada vez mais. De 75 anos - de 1850 a 1925 - passaram para 5 anos de diferença. Prevê-se que por volta de 2050 haverá dez bilhões de pessoas. É triunfo ou dano?
Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis microbiólogos, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação. Isso pode ser comprovado por micro-organismos colocados na cápsula Petri (placa redonda com colônias de bactérias e nutrientes). Pouco antes de atingirem as bordas da placa e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente morrem. Para a humanidade, comentam eles, a Terra pode mostrar-se idêntica a uma cápsula Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre: desertos, floresta amazônica e regiões polares. Estamos chegando às bordas físicas da Terra. Há explosão demográfia e decrescimento dos meios de vida num planeta limitado. Sinal precursor de nossa próxima extinção?
O prêmio Nobel em medicina, Christian de Duve, sustenta que estamos assistindo a sintomas que precederam no passado as grandes dizimações. Normalmente desaparecem por ano 300 espécies vivas porque chegaram ao seu climax evolucionário. Dada a pressão industrialista global sobre a biosfera estão desparecendo cerca de 3.500. Um desastre biológico. Será que agora não chegou a nossa vez?
Carl Sagan, já falecido, via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais como o Voyager 1 para fora do sistema solar, a manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. A vontade de viver nos leva a excogitar formas de sobrevivência para além da Terra. O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extrasolar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de trinta mil quilômetros por segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável. Mesmo assim só para chegar a estrela mais próxima – a Alfa do Centauro – precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade.
Tais reflexões nos permitem falar de um possível Armagedon humano. Este representa um desafio para as religiões que vêem o fim da espécie como obra do Criador e não da atividade humana. Para o Cristianismo a morte coletiva, mesmo induzida, não impede o triunfo final da vida pela via da ressurreição e da transfiguração de toda a criação por Deus.
MEU ENCONTRO COM QUINTANA

Por Luiz Carlos Amorim

Uma grande frustração que tenho é não ter conhecido pessoalmente Mario Quintana, o menino Quintana, meu poeta preferido. Sempre quis ir a Porto Alegre, visitar a Feira do Livro, mas o trabalho e outros compromissos nunca deixaram. E o poeta foi completar o céu com a sua poesia.
Então fico eu cá imaginando meu encontro com o poeta. Eu chegaria ao Majestic ou o encontraria na Rua da Praia, ou ainda na Feira do Livro de Porto Alegre. Eu o cumprimentaria, beijar-lhe-ia a mão e me apresentaria. Dir-lhe-ia que sou um poeta aprendiz, nascido ao pé da Serra do Mar, na Santa e bela Catarina, que aprendeu a amar a poesia com os seus poemas. E então pediria para lhe dar um abraço. Talvez ele até pudesse pensar que eu fosse maluco, mas não somos todos, um pouco? E ele talvez já tivesse conhecido outros malucos assim. Mas acho que me convidaria a sentar e conversaríamos. Eu lhe entregaria um ou outro poema, ele acenderia um cigarro e talvez lesse um dos meus poemas.
Que diria ele? Talvez gostasse, talvez não. Deveria ser comum as pessoas levarem poemas para ele ler e opinar, talvez ele nem gostasse de fazer isso. No entanto, qualquer coisa que ele dissesse seria uma grande lição para um pequeno poeta (isso me lembra que ele disse que não existem pequenos ou grandes poetas: ou se é poeta ou não).
Será que ele reconheceria um poeta em mim? Não sei, mas acho que ele diria alguma coisa, naquela voz mansa e naquele falar quase ligeiro, e o que ele dissesse seria bem vindo.
Eu tentaria, ainda que com receio de aborrecê-lo, fazer uma entrevista, é claro. Far-lhe-ia algumas perguntas, que não direi quais porque na época elas seriam umas, mas hoje já seriam outras. E acho que ele responderia, e eu teria aprendido muito mais então. E eu dividiria as palavras do mestre Quintana, pois certamente publicaria, para que todos pudessem usufruir da sensibilidade e da sabedoria dele.
E voltaria para casa com a alma lavada, feliz por ter conhecido o grande poeta.
BARES

Autor: Nicolas Guillén – (poeta cubano) escrito em 1958
Tradução: Urda Alice Klueger – (brasileira) traduzido em 2006

Amo os bares e botequins
Junto ao mar
Onde a gente conversa e bebe
Só por beber e conversar.

Donde João Ninguém chega e pede
Seu trago básico
E estão João Bronco e João Navalha
E João Narizes e até João
Simplório, e só, e simplesmente
João.

Ali a branca onda
Bete de amizade; uma amizade de povo, sem retórica,
Uma onda de: “ Oi, como estás?”
Ali cheira a peixe
A mangue, a rum, a sal
E a camisa suada posta a secar ao sol.

Busca-me, irmão, e me acharás
(em Havana, no Porto,
Em Jacmel, em Shangai)
com a gente simples
que só por beber e conversar
povoa os bares e botequins
junto ao mar.

terça-feira, 23 de outubro de 2007




AS CHUVAS DA MINHA INFÂNCIA

Por Luiz Carlos Amorim (escritor e editor – lc.amorim@ig.com.br)


Esta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado de ter acordado com o barulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tamborilar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas, graças a Deus!) ou na janela. Que eu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, do flamboian, da azaléia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum, em nossa região), pois as flores caem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem. E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua, no inverno, pois é resfriado na certa..
Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância, já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles tempos de garoto, idos tempos, fazia com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelas e olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao lado da casa e junto da calçada. Não era delicioso chapinhar na água da chuva? (Sei que chapinhar não é uma palavra muito usada, mas meu sobrinho de três anos a ouviu e adora usá-la.)
Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fazendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando barquinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidade que só criança tem.
Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando apanho chuva, fico aborrecido por que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de poder. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficando cansado.
Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um maluco molhado cantando e dançando na chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu.



RASGOU O VERBO
RASGOU O VESTIDO
RASGOU O VELHO
RASGOU O VELUDO
O VESTIDO DE VELUDO VELHO
RASGOU O VERBO AMAR

ISABEL MIR
OUTUBRO/2007

segunda-feira, 22 de outubro de 2007




Morrer para viver mais e melhor


Leonardo Boff - Teólogo



O sentido da vida depende do sentido que damos à morte. Se a morte é vista como simples negação da vida e como tragédia biológica, então vale o que São Paulo já dizia: "comamos e bebamos pois amanhã morreremos".

Mas há culturas que lhe deram um sentido mais alto. Ela é oportunidade de construir o próprio destino e de plasmar o mundo à nossa volta consoante um projeto civilizatório.

O cristianismo, por sua vez, propõe a sua representação da morte. Não contrária à vida, mas como uma invenção inteligente da vida para poder dar um mergulho radical na Fonte de toda vida. A morte não seria um fim-termo mas um fim-meta alcançada, um peregrinar rumo ao Grande Útero paternal e maternal que enfim nos acolherá definitavamente.

Dentro do cristianismo desenvolveu-se, com referência à morte, uma tradição de grande significação e de sentido de festa. Trata-se da tradição franciscana. Francisco de Assis conseguira uma reconciliação bem sucedida com todas as coisas, com as profundezas mais obscuras de nossa vida e com suas dimensões mais luminosas. Cantava a morte como irmã. Não como bruxa que nos vem arrebatar a vida mas como irmã que nos introduz no reino da plena liberdade. Morreu cantando salmos e cantigas de amor da Provence.

Os franciscanos todos guardam esta herança sagrada na forma como celebram a morte de algum confrade, membro da comunidade. A mim, com frade (que ainda sou em espírito) me tocou vivenciá-lo inúmeras vezes. É simplesmente comovedor - uma pequena antecipação do novo céu e da nova Terra - dentro deste já cansado planeta. Ao se aproximar a morte do confrade, toda a comunidade se reune ao redor de seu leito. Recitam-se salmos e orações, infundindo confiança ao moribundo para o Grande Encontro. No dia em que morre, à noite faz-se festa. É a chamada "recreação". Ai há confraternização, comida, bebida, comentários sobre a saga pessoal do confrade falecido e jogos de vários tipos.

No dia seguinte faz-se o enterro. E à noite, nova "recreação" festiva. O que se esconde atrás desse rito de passagem? Esconde-se a crença de que a morte é o vere dies natalis, o verdadeiro Natal da pessoa, o momento em que acaba de nascer definitivamente. Como não estamos ainda prontos, embora inteiros, cada dia vamos nascendo, progressivamente, até acabar de nascer. Isso dá-se na morte. Esta não é a campa da vida. É seu berço. Quem pode se entristecer com o nascimento da vida? É Natal e Páscoa, magnificação da vida mortal que a partir da morte se eterniza. Portanto, há bons motivos para festejar e celebrar.

O efeito desta compreensão é a desdramatização da morte e a jovialidade da vida. A vida não foi criada para terminar na morte, mas para se transformar através da morte. Esta representa aquele momento alquímico de passagem para uma outra ordem de realidade, onde a vida pode continuar sua trajetória de expressão das infinitas possibilidades que contem, até aquela de poder se fundir com a Suprema Realidade.

Então podemos dizer: não vivemos para morrer. Morremos para viver mais. Melhor ainda: para permitir a ressurreição da carne que é a revolução dentro da evolução.
ENCONTRO


Neida Wobeto


É verdade!
É vero!
É Veríssimo!!!
A menina conheceu
o menino do passado.
O menino apresentou-se à menina
como o "homem das letras".
A menina encantou-se.
As letras trabalharam,
na infância da menina,
formando sonhos e idéias.
A menina perpetuou
a imagem da fantasia
e buscou espelhar-se no menino.
A menina cresceu.
O menino morreu.
As letras mudaram de nome.
A menina não conheceu,
em vida,
seu ídolo.
No plano etéreo,
em sonhos,
menino e menina trocam idéias
e as almas se apresentam:
- Muito prazer! Urda.
- Encantado! Érico.
O semi-árido: o mais chuvoso do planeta
Leonardo Boff - Teologo


O romancista Graciliano Ramos, o pintor Di Cavalcanti e o cantor-sanfoneiro Luis Gonzaga nos acostumaram a associar o semi-árido nordestino à seca. Mas se trata de uma visão curta e parcial. Os últimos anos conheceram notável mudança de leitura. Estudos minuciosos e trabalhos consistentes suscitaram uma visão revolucionária. Fala-se menos de seca e mais de Semi-Árido com o qual se deve conviver criativamente. Nesta tarefa ganham relevância ONGs, comunidades eclesiais de base, a Articulação do Semi-Árido (ASA) que inclui 800 entidades ao redor do projeto "um milhão de cisternas" (já se construiram 200 mil) e o Movimento de Organização Comunitária (MOC) de Feira de Santana-BA que atua em 50 minicípios. O melhor apanhado desse processo prático-teórico nos é oferecido pelo exímio conhecedor da bacia do São Francisco, Roberto Malvezzi, com seu livro "Semi-Árido: uma visão holística"(Pensar o Brasil 2007). O eixo central é entender o Semi-Árido como bioma e a estratégia consiste na convivência não com a seca mas com o Semi-Árido.
Tal bioma, chamado caatinga, recobre uma área de 1.037.00 km quadrados com rica biodiversidade. Na época da seca quase tudo hiberna. Mas basta chover, de setembro a março, para, em alguns dias, tudo ressuscitar com um verdor deslumbrante. Não há falta de água. Como média caem 750 mm/ano. É o Semi-Árido mais chuvoso do planeta. Mas pelo fato de o solo ser cristalino (70%), impedindo a penetração da água, acrescentando-se ainda a evaporação por insolação, perdem-se anualmente cerca de 720 bilhões de litros de água. Recoletada, seria mais que suficiente para toda a região.
A estratégia da convivência com o Semi-Árido "visa a focar a vida nas condições socioambientais da região, em seus limites e potencialidades, pressupondo novas formas de aprender e lidar com esse ambiente para alcançar e transformar todos os setores da vida". Com efeito, os vários grupos que por lá atuam, utilizam o método Paulo Freire que consiste, fundamentalmente, em criar sujeitos ativos, autônomos e inventivos. Assim aprendem a aproveitar todos os recursos que a caatinga oferece, utilizando tecnologias sociais de fácil manejo com o propósito de garantir a segurança alimentar, nutricional e hídrica através da agricultura familiar e de pequenas cooperativas.
Entre muitos, três projetos são notáveis: o da construção de um milhão de cisternas de bica que recolhem água da chuva dos telhados, conduzindo-a diretamente para o reservatório de 16.000 litros hermeticamente fechado. O outro é "uma terra e duas águas"(o "1+2"): visa garantir a cada família uma área de terra suficiente para viver com decência, uma cisterna para abastecimento humano e outra para a produção. Por fim, o Atlas do Nordeste, proposta da Agência Nacional de Águas para beneficiar 34 milhões de nordestinos do meio urbano, custando a metade da transposição. Esse projeto se opõe à transposição, qualificada como "a última obra da indústria da seca e a primeira do hidronegócio".
Os referidos projetos, se implementados, custarão muito menos, atenderão a mais gente e não causarão impactos ambientais. Por fim, cito duas outras iniciativas do MOC: o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), oferecendo educação contextualizada às crianças e o Baú da Leitura. São baús cheios de livros que percorrem as comunidades entretendo as pessoas com leituras, interpretações e teatralizações, fazendo o povo pensar. De fato, o ser humano não nasceu para passar fome mas para irradiar, como diz um de nossos poetas-cantadores.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

SOL e MI


Cordas nos acordam no pescoço, osso que foste forte, mas, se não fosse a tosse estarias bem. Antes do tom ouvistes um som? Era alguém lá de cima tentando a rima para a menina dos sonhos dormir. Barulho no murro de ar, solta a letra que tem tanta treta para se decifra, homem diz: quero notas para Mi tocar. Olhar que caminha, bolhas de água caem do céu, todos ficam atolados na lama, todos sentem a melodia da chuva, depois um coro de choro, outra chuva. Guardem os guarda-chuvas, pois, somos Sol, este que escreve não lhe abre portas, mas passa por elas em saltos de anzol. Terra fresca onde encontro contos de fadas cantados, alados, sem dados digitais? Malucos descrevem e escrevem a falsa normalidade, basta o tempo, idade que aos poucos entra dentro da água do côco, olhar na fossa, fosco. A busca pela caneta, a neta usou , sou quem procura os seus desenhos, ela me fala de estrelas e suas gotas de luz. A luz ilumina a menina do olhos de fogo. Jogo de luzes entre céu e mar, peixes rezando para a criança deitar, seus sonhos fazem o mundo pensar e isto pode ser perigoso em um momento que vivemos.

O velho passa a mão em seus cabelos, elos de sentimentos nunca mentem o que o coração fala, e fala baixo para que a vibração tenha ação, oração, espada cravada entre sabedoria e informação, ele não pode adivinhar, ninguém pode. A menina pede chuva de palavras para lavar seu corpo que transpira a inocência. Ela cresce e não escuta mais os sons, a menina fica grande e seus lindos sonhos tornam- se pequenos, impossíveis de serem alcançados, jogo-lhe o anzol para ajudá-la, quero pescar os seus sonhos e lhe entregar em uma caixa colorida, flor de idéias, imagens da vida. Menina, nina e dorme, acorda novamente em cordas, notas de Sol que Mi tocam.

Rodrigo Rafael Giovanella, (Kico).
Indaial –SC.

OBS: Este é um texto em ebulição, que nasce da consciência intuitiva deste autor que não planeja, viceja, sim, as suas impressões mimetizadas da sua alma que também se encontra em ebulição. Tal qual um vulcão prestes a emanar o magma denso, o autor a cima tem tudo para provocar rachaduras desconcertantes das placas tectônicas de uma literatura prestes a surgir como continente. Por tanto, a literatura propicia novos lugares em novos surgires, ou seja, novos textos.


Paulo Alfredo da Veiga – Escritor.
Ode ao rebolado

Pedro Jassa

Odeio a bunda dura
nada é se não abjeto
um ridículo completo
que só leva à vergonha

Impossível desejar
algo assim tão anti-estético
que ecarna o patético
numa curva quadrática

A dureza de uma bunda
esboça um futuro tédio
num monólogo estéril
que virá no logo após

O conforto é do macio
e o que é duro incomoda
mesmo estando tão na moda
a dureza é depressiva

Flacidez não é vantagem
mas dureza é suplício
mais vale ter equilíbrio
num balanço sensual
Precipitação

Daniella Almeida

Alguns passam por você
e sem perceber
fazem um bem danado...

Um dia pensamos, será?
No outro a certeza.

Aquele sentimento
um breve futuro imaginado
de minutos precipitados
logo se transforma em passado.
Poesia em revista


Vilmar Carvalho

Onde procurar a poesia da cidade que te mata?
Carregas os ossos de todos os poetas?
Que fibra é tão aérea que te escapas imensamente triste?
Afinal, qual a poesia em revista que te sufocas entre as tetas?


O homem maduro vê pela primeira vez seu peito.
O coração corre como uma avestruz desajeitada
E o balanço da vida... É uma revista das coisas acontecidas
Quando atiravas grandes banhos de esperança...

Sobre os telhados, um pouco abaixo, no rosto das ruas maltratadas,
Um pouco ao lado, nas franjas de cana-de-açúcar que tudo te custas saber...
Onde esta a poesia neste pequeno rasgo de casas?
O tempo todo partido apodrece em que pedaço de nojo?

Por que a sensação de que as mãos de seus poetas mortos
Caíram do braço e encontraram cada um dos pedaços
Da poesia que somente foi?
Onde esta a poesia dos vivos?

Numa impostura: a poesia não é afeta às conjunturas?
E preciso que as mãos da vida encontrem as mãos dos mortos,
Por que a poesia é registro, depósito e sedimento?
O homem maduro vê pela primeira vez seu peito.

Nenhuma cidade do mundo estará pesada de metáforas.
Enquanto esquecida está a poesia, outros conspiram
Um primeiro versinho sobre os auspícios da esperança.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A FILHA DELE

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O ano, já não sei. Foi no ano em que foi fundado o Jornal Brasil de Fato, e o lançamento do mesmo aconteceu no Auditório Araújo Viana, lá em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, e o mesmo estava totalmente lotado, três ou quatro mil pessoas ocupando cada espacinho possível, e o palco iluminado lá na frente, com uma longa mesa repleta de celebridades que, cada uma por sua vez, levantou-se e, de pé, diante de um microfone suspenso, falou da importância daquele jornal estar nascendo e da importância de tantas coisas neste mundo que todos nós acreditávamos que poderia ser melhor. Íamos de emoção em emoção, aplaudindo cada celebridade daquelas, sem estarmos, de fato, preparados, para o que viria abalar com a maior força de todas os nossos corações – e já não lembro quem tudo ali levantou e falou, mas lá estavam Sebastião Salgado, e Eduardo Galeano, e a Madre Hebe de Bonafini, vinda diretamente da sua Plaza de Mayo com a carga dos seus filhos mortos pela ditadura argentina, e todos tinham sua história de lutas e de resistência, e todos da longa mesa falaram o que iriam falar ... até que, lá na mesa, restaram apenas duas pessoas, uma mulher e um homem.

Até hoje não sei quem era aquele homem, pois ele foi o último a falar, e quando o fez, a emoção apaixonada que tomara conta de todas aquelas milhares de pessoas um pouco antes fez com que nenhum de nós prestasse atenção a ele – e não há que se dizer que havia ali tantos milhares de mal-educados, por terem feito tal coisa com aquele homem que ficara para o final, mas já conto o que aconteceu, e penso que não haverá quem não nos absolverá.
A penúltima pessoa a falar, portanto, era uma mulher. Teria cerca de 40 anos, era clara, um pouco loira, muito bonita, com um jeito de doçura e amplidão que a gente costuma imaginar nas mães, um pouco cheinha dentro de um simples vestido florido que lhe dava um jeito de primavera, e como eu, penso que quase a totalidade daquele grande público não fazia idéia de quem ela poderia ser. No seu jeito bonito e seguro, suave e doce, ela caminhou até o microfone suspenso, e com grande simplicidade, falou para todos nós:
- A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”
Enquanto ela tomava fôlego para continuar a sua fala, um silêncio de pedra caiu no grande auditório, e penso que, como eu, cada um de nós fazia uma rápida conferência das suas memórias, olhando incredulamente para aquela linda mulher e comparando a sua imagem com outras imagens conhecidas, fotos famosas em todo o mundo, de um homem tão lindo por fora quanto por dentro, imortalizado pelas lentes de Alberto Korda e de outros, e penso que, como aconteceu em mim, ao mesmo tempo aconteceu com todo o mundo, e houve aquele instante em que “caiu a ficha”, e antes que a mulher pudesse continuar a sua fala, o silêncio de pedra espocou nos mais vibrantes aplausos que já ouvi em minha vida, como fogos de artifício na beira do mar em noites de Ano Novo, e aquele imenso público foi tomado por tal intensidade de amor por aquela mulher que ficara ali sentada um tempão, incógnita e bonita no seu vestido simples e florido, que já nada mais se ouviu do que ela tentou falar.
Diante de nós, em carne e osso, estava Aleida Guevara, a filha do Che, e penso que muita gente fez o que eu fiz: obedecendo ao coração, sem pensar em mais nada, saí às cegas, descendo as altas arquibancadas em direção ao palco, disparando o flash da minha pobre máquina fotográfica até o fim, tentando fixar de alguma forma aquele momento para sempre.
Havia um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam, porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima, a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de ter vivido coisa igual.
Foi por conta de Aleida Guevara que não ficamos sabendo quem era o último homem que falou, mas penso que não faz mal – ele deve ter entendido que há forças que são maiores que todas as outras.
Então, o evento acabou, e milhares de pessoas foram saindo dali, mas algumas centenas ficaram, e os guardas não podiam nos liberar para irmos até ela, mas, irmãos como agora éramos, entregávamos a eles nossas máquinas fotográficas para que a fotografassem mais de perto para nós – e então fez ela sinal para que nós nos aproximássemos, e os seguranças ajudaram a nos organizar em fila.
Aleida Guevara, linda, serena e doce, aconchegante como uma mãe dentro do seu vestido colorido, ficou ali naquele lugar até que o último de nós pudesse trocar uma palavra com ela, pegar seu autógrafo, pousar para uma foto ao seu lado. Ela tinha a compreensão das coisas incompreensíveis – ela nos entendia. Foi uma noite para nunca mais esquecer. Tenho a foto daquele dia pendurada na parede da sala da minha casa.
Vi-a, de novo, dois ou três anos depois, em Caracas, no Fórum Social Mundial, e o amor que ela suscitava era o mesmo. Hoje faz 40 anos que assassinaram o seu pai. Não podia deixar de contar esta história.

Blumenau, 09 de Outubro de 2007.


Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora